Câmara Municipal de Recife Reflete sobre o Passado
Na última quinta-feira, a Câmara Municipal de Recife realizou uma audiência pública em homenagem aos 62 anos do Golpe Militar, relembrando a importância de não esquecer o período da ditadura civil-militar brasileira. A ativista Liana Cirne, que participou do evento, salientou a necessidade de se relembrar esses momentos sombrios da história nacional para evitar que a liberdade seja ameaçada novamente. “É fundamental que a gente lembre a ditadura civil militar brasileira para que ela nunca se repita. Precisamos demarcar o espaço da democracia, lembrando e lutando para que ela permaneça de pé”, afirmou Cirne, fazendo referência à tentativa de golpe em janeiro de 2023.
A vigília contou com a exposição de cartazes que traziam fotos de militantes que perderam suas vidas durante os anos 70, acompanhados de faixas do Fórum da Anistia e do Conselho Municipal de Direitos Humanos e Segurança Cidadã. As mensagens clamavam por justiça, pedindo a punição dos torturadores e a criação de uma cidade mais segura, com um foco especial nas mulheres. O evento ainda teve a leitura de poemas e diversas intervenções que ressaltaram a importância da democracia, da verdade e da criação de políticas públicas voltadas à memória histórica.
Memória e Justiça: O Papel da Sociedade
Durante a audiência, Marcelo Santa Cruz, gerente de Articulação de Direitos Humanos da Secretaria de Direitos Humanos do Recife, lembrou episódios marcantes do regime militar na capital pernambucana. Ele é irmão de Fernando Santa Cruz, um estudante de Direito que desapareceu em 1974, e enfatizou a necessidade de contar essa história para que não se repita. “É imprescindível uma política de memória e verdade, pois isso é lutar pela democracia. A luta pela memória é, na verdade, uma luta pela democracia e para que os horrores do passado não voltem a acontecer”, disse Marcelo.
A ativista Amparo Araújo, fundadora do Movimento Tortura Nunca Mais de Pernambuco e uma das vozes mais respeitadas na defesa dos direitos humanos, reforçou que eventos como a vigília são fundamentais para fortalecer a identidade do povo pernambucano. “Que possamos um dia ter uma sociedade justa e igualitária, como nosso País merece. Um país sem memória e sem identidade nunca será uma nação completa”, afirmou Araújo.
Propostas para o Futuro e a Luta pela Memória
O ex-preso político Edival Nunes Cajá, sociólogo e coordenador do Comitê Memória, Verdade, Justiça, Reparação e Democracia, falou sobre a necessidade de criar um circuito da memória na cidade. Ele compartilhou suas experiências ao longo dos anos em diversos presídios e apresentou a proposta de que placas sejam colocadas nesses locais. Além disso, sugeriu que o nome de logradouros que hoje homenageiam figuras ligadas ao regime militar sejam trocados por nomes de pessoas que realmente lutaram pela liberdade, como Dom Helder Câmara e Gregório Bezerra.
Além de Edival, outros representantes também se pronunciaram, como Manoel Moraes, do Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social (CENDHEC); Nara Santa Cruz, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da OAB-PE; e Thiago Santos, presidente do Conselho de Direitos Humanos da Cidade do Recife. Cada um trouxe à tona a importância de se lembrar do passado e de se construir um futuro livre das sombras da repressão.
O evento não só promoveu a reflexão sobre os anos de opressão, mas também deixou claro que a luta pela memória e pela verdade é uma tarefa coletiva, essencial para garantir a democracia e a justiça social no Brasil.
