Uma Nova Perspectiva sobre a Resistência Feminina em Tempos de Repressão
Após um ano de pesquisa aprofundada em um dos acervos mais significativos da história política de Pernambuco, o e-book intitulado “Mulheres e Resistências: caminhos de insubmissão nos arquivos da Delegacia de Ordem Política e Social de Pernambuco” apresenta uma coletânea de perfis, trajetórias e análises sobre mulheres que foram fichadas pela extinta DOPS/PE entre 1935 e 1946.
A iniciativa surge de um projeto de pesquisa desenvolvido ao longo de 2025 e traz à luz cerca de 400 prontuários femininos, que estavam preservados no Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano, mas que por muito tempo ficaram à margem das narrativas oficiais sobre o período marcado pelo Estado Novo.
O acervo da DOPS/PE, um órgão repressivo criado com a instauração da ditadura do governo Vargas, é majoritariamente composto por registros de homens. No entanto, a identificação de um número significativo de prontuários voltados a mulheres estimulou a pesquisa. A partir de uma indagação central sobre a identidade e a vida dessas mulheres que foram monitoradas, vigiadas e criminalizadas pelo Estado, o projeto mapeia histórias de mulheres de diferentes perfis: negras e brancas, jovens e idosas, intelectual, operária, sindicalista, comunista e anarquista, que desafiaram a ordem política da época.
O lançamento do e-book ocorreu no auditório do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano, na última quarta-feira, dia 16. A obra conta com ensaios elaborados pelas sociólogas Anita Pequeno e Sophia Branco, além da sistematização de dados feita pela jornalista e produtora cultural Clarice Hoffmann, idealizadora do projeto. Os textos abordam tanto os perfis individuais das mulheres quanto os mecanismos de repressão, vigilância e a construção da suspeição política que marcaram suas vidas. A pesquisa destaca, ainda, o impacto de gênero, classe e raça sobre como o Estado interferiu nas trajetórias femininas durante esse período sombrio da história brasileira.
Entre as personalidades que são revisitadas nesta obra, encontramos nomes proeminentes da história política e cultural do Brasil, como Patrícia Galvão, conhecida como Pagu, que aparece em prontuário rotulada como “intelectual” e “sectária do credo vermelho”. Também são mencionadas lideranças políticas importantes do estado, como Adalgisa Rodrigues Cavalcanti, que foi deputada estadual eleita em 1947, e cujo dossiê revela décadas de vigilância sobre sua vida. Além dessas figuras conhecidas, o livro também revela histórias de mulheres que, embora menos reconhecidas, exerceram papéis significativos, como Júlia Santiago da Conceição, uma mulher negra e operária têxtil que foi a primeira a ocupar a Câmara Municipal do Recife, além de militantes como Amélia Gomes Reginaldo, Josefa Maria Ferreira e Paulina Barboza de Oliveira.
Mais do que um registro de histórias individuais, a publicação oferece uma leitura ampliada do acervo da DOPS/PE como uma fonte valiosa para estudos sobre democracia, direitos humanos, cidadania e a criminalização da resistência. Ao dar visibilidade a essas mulheres, o projeto enriquece o reconhecimento do protagonismo feminino nas lutas sociais e políticas do século 20, além de estimular novas pesquisas que conectem memória, difusão histórica e acesso público à documentação.
Com o objetivo de democratizar o acesso ao conhecimento produzido, o e-book está disponível gratuitamente através dos perfis @mulhereseresistencias e @arquivopublicodepernambuco no Instagram. Todas as imagens da publicação possuem audiodescrição, assegurando acessibilidade para pessoas com deficiência visual. O projeto Mulheres e Resistências foi contemplado no Edital de Ações Criativas da Lei Paulo Gustavo e recebeu apoio do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano, com o incentivo da Secretaria de Cultura de Pernambuco, do Ministério da Cultura e do Governo Federal.

