Artistas na Luta pela Democracia
Nos últimos meses, a presença de artistas brasileiros na arena política se intensificou, especialmente diante da aprovação de projetos polêmicos no Congresso Nacional, como a PEC da Blindagem e o PL da Dosimetria. Com um aprofundamento da crise institucional, cantores, atores e influenciadores estão se engajando ativamente em protestos, reafirmando o papel da cultura na luta pela democracia. Essa mobilização remete ao período pós-ditadura militar, quando artistas começaram a utilizar suas vozes e plataformas para clamar por liberdade de expressão e justiça social, estabelecendo um precedente que ecoa até os dias atuais.
Após a saída do ex-presidente Jair Bolsonaro do poder, a atuação dos artistas foi além das redes sociais. Eles passaram a protagonizar manifestações nas ruas e a expressar suas opiniões em shows e programas de televisão, abordando temas que impactam a sociedade. O setor cultural foi um dos mais afetados durante o governo anterior, sofrendo cortes de verbas e restrições a projetos artísticos.
Ernani Carvalho, cientista político da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), afirma que essa mobilização reflete um ambiente carregado de tensões entre os poderes do Estado. “O Brasil está passando por uma disputa acirrada, onde o Executivo, sob a liderança do presidente Lula, busca formar alianças com a Suprema Corte para contornar os conflitos com um Congresso predominantemente de centro-direita e, em alguns casos, claramente de direita”, destaca. Essa configuração tem levado artistas a se manifestar com mais frequência, somando-se à luta por direitos e liberdade.
O Papel das Mobilizações
No dia 21 de setembro de 2025, as vozes da cultura se uniram em diversas capitais do Brasil para protestar contra a PEC da Blindagem, um projeto que propunha mudanças nas regras de responsabilização de parlamentares. O resultado foi uma mobilização massiva, com milhares de pessoas se reunindo, especialmente na orla de Copacabana, no Rio de Janeiro. O cantor Caetano Veloso, em um vídeo amplamente compartilhado, convocou a população a reagir contra a proposta, chamando-a de “PEC da bandidagem” e pedindo uma resposta firme da sociedade para o que considera um retrocesso democrático.
Além disso, neste mês de dezembro, as pautas políticas continuam a mobilizar artistas, que agora se posicionam contra o PL 2162/23, conhecido como PL da Dosimetria. Este projeto, que altera critérios de somas de penas e progressão de regime, é visto como um mecanismo que pode beneficiar figuras ligadas ao antigo governo, incluindo Jair Bolsonaro e militares envolvidos na tentativa de golpe de Estado em 2023.
No último dia 14, mais um ato foi realizado no Rio de Janeiro, convocado através das redes sociais. O evento contou com a presença de nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Djavan e Ivan Lins, que utilizaram suas performances para expressar suas opiniões políticas e artísticas. A conexão entre arte e política se reafirma como uma ferramenta poderosa de mobilização social.
Reação da Direita e a Diversidade de Opiniões
Por outro lado, artistas vinculados à direita também se manifestaram ao longo do ano, expressando seu descontentamento com o governo Lula. Recentemente, o cantor Zezé Di Camargo publicou um vídeo criticando a presença do presidente Lula e do ministro Alexandre de Moraes na inauguração do SBT News, pedindo que sua participação em um especial de Natal não fosse exibida. O canal optou por substituir seu programa por um episódio do Chaves, levantando questões sobre a liberdade de expressão e a dinâmica entre artistas e a mídia.
O apoio a Zezé veio de várias figuras, inclusive do senador Magno Malta, que criticou os artistas da esquerda por se unirem contra a anistia, enquanto aqueles que apoiam a proposta são criticados. Em resposta, o senador Randolfe Rodrigues compartilhou uma lista com os artistas mais bem pagos pela Lei Rouanet, sugerindo que os críticos nem sempre representam a voz da maioria.
A direita também planeja lançar o filme Dark Horse, que pretende contar a trajetória de Jair Bolsonaro, com estreia prevista para 2026. O deputado Mário Frias divulgou o primeiro teaser do filme, que está sendo produzido em inglês e traz no elenco o ator Jim Caviezel, conhecido por seu papel em A Paixão de Cristo. Essa produção é mais um exemplo de como a política e a arte estão entrelaçadas no atual cenário brasileiro.

