Os Bastidores das Prévias Carnavalescas em Recife e Olinda
Recife e Olinda, as famosas cidades irmãs, compartilham um anseio inabalável a cada início de ano: a celebração do Carnaval. Para os foliões, o espírito da Festa de Momo não se limita aos meses de fevereiro ou março, e tampouco se preocupa se o ano é bissexto. Para eles, janeiro é sagrado e sinônimo de prévias. No entanto, colocar um bloco nas ruas antes da data oficial requer muito mais do que apenas um evento festivo. É necessário o esforço de uma verdadeira legião de apaixonados pela folia, além de uma logística e programação meticulosas. Acima de tudo, é preciso acreditar que ‘gente é pra brilhar’.
A história dos blocos de Carnaval em Pernambuco é frequentemente marcada por laços familiares. Um exemplo icônico é a Troça Tá Maluco, que há 42 anos traz alegria às ruas após sua fundação, em 1983, a partir de uma simples brincadeira entre irmãos. Batendo panelas e gritando ‘Eu tô que tô’, eles logo foram acompanhados pela resposta entusiástica da vizinhança: ‘Que Tá Maluco!’. Desde então, a troça não parou mais de desfilar, sempre no último domingo antes do Carnaval.
Paulo Lemos, neto de um dos fundadores e atual organizador da Troça, revela que os preparativos para o desfile começam logo após a passagem de setembro, quando a Pitombeira inicia as prévias. ‘Assim que o mês de setembro acaba, começamos a planejar o próximo ano. Fazemos a arte das camisetas, buscamos autorizações na prefeitura para fechar ruas durante o desfile e definimos o trajeto’, explica ele. Essas etapas são apenas a ponta do iceberg de um planejamento que visa garantir a segurança e a diversão dos foliões, preservando a magia do evento.
O cuidado com a logística é essencial, como enfatiza Paulo: ‘Os foliões podem não perceber, mas existe uma complexa rede de segurança e organização por trás do que parece um evento espontâneo. Desde a organização dos músicos até a distribuição de bebidas e alimentos, tudo é pensado para garantir um desfile seguro e alegre’.
Enquanto em Recife os blocos se dividem entre as festividades, em Olinda o exuberante evento conhecido como Homem da Meia Noite, que se tornou um patrimônio cultural de Pernambuco, realiza suas próprias prévias. Fundado em 1932, esse bloco é a cara da festa, mesmo realizando eventos como a prévia infantil, Calunguinha na Folia. Luiz Adolpho, o atual presidente, enfatiza que, embora suas prévias não sigam o formato tradicional, a organização é feita com a mesma seriedade e rigor que o desfile oficial.
“Nos últimos anos, nossa comemoração tem um caráter itinerante, celebrando nosso aniversário pelo interior de Pernambuco, mas, neste ano, retornamos a Olinda com o tema ‘Tambores Silenciosos’, que homenageia figuras da nossa cidade. Essa celebração é simbólica e marca a entrega da indumentária do bloco”, detalha Luiz.
O Homem da Meia Noite é um símbolo de união e compromisso com a tradição, e, segundo Adolpho, envolve cerca de 400 pessoas em sua organização, que se multiplica para mais de mil no dia do desfile, contando com o apoio de órgãos municipais. “Cada desfile é uma tarefa complexa que requer planejamento cuidadoso, levando em consideração a segurança e a interação dos foliões com o nosso bloco”, salienta ele.
Para muitos, o Homem da Meia Noite representa uma conexão profunda com as memórias familiares, provocando emoções intensas nas pessoas ao reverenciar a tradição. “A presença do bloco nas ruas é quase como um ritual, e a força emocional que isso representa para os foliões é inigualável”, conta Luiz.
Antecipando a festa oficial, Recife também lança mão do Aurora dos Carnavais, que 15 dias antes da data principal reúne uma variedade de blocos líricos em um grande cortejo. Tábida Bandeira, coordenadora desse evento, explica que a escolha dessa data não é aleatória: “O Aurora foi pensado para que os blocos possam brincar antes do Carnaval, reunindo todos sem competir com as festividades oficiais”.
Todo o planejamento é feito ao longo do ano, desde a seleção dos artistas até os ensaios que garantem a excelência das apresentações. “A apresentação deve ser dedicada ao frevo de bloco, que é uma forma mais romântica e delicada, essencial para a nossa cultura”, destaca Tábida.
A interação entre diferentes blocos acontece de forma colaborativa, com reuniões e ensaios realizados no Paço do Frevo. A dedicação é evidente e, segundo Tábida, o Aurora dos Carnavais atrai um público de todas as idades, consolidando sua importância na preservação da cultura do frevo.
O evento, no ano passado, contou com a presença de cerca de 25 mil espectadores, mostrando que, mesmo antes da folia oficial, a paixão pelo Carnaval já está em alta. “O público é o coração do Aurora. É um momento de celebração intergeracional que demonstra a força da nossa música”, conclui Tábida.
Enquanto a última nota do desfile ecoa pela Rua da Aurora, a sensação é uma mistura de nostalgia e expectativa, ‘é triste porque acabou, mas ao mesmo tempo há alegria em saber que no próximo ano teremos mais’. É esse movimento incessante que sustenta o Carnaval muito antes da quarta-feira de cinzas chegar.

