Mudanças no Comportamento Político nas Redes
Os brasileiros têm adotado uma abordagem cautelosa ao tratar de política em aplicativos de mensagens. Uma nova pesquisa indica que, enquanto muitos evitam discussões acaloradas em grupos familiares, um número crescente se envolve em grupos organizados para apoiar candidatos. Essa dinâmica revela um amadurecimento na forma como os cidadãos utilizam plataformas como WhatsApp e Telegram para fins políticos.
De acordo com a quinta edição da pesquisa “Os vetores da comunicação política em aplicativos de mensagem: hábitos e percepções de brasileiros”, realizada pelo InternetLab e pela Rede Conhecimento Social, 50% dos participantes afirmaram evitar debates políticos em grupos familiares para evitar conflitos, e 52% se mostram cada vez mais cautelosos com o que compartilham online. Em contraste, a pesquisa revelou que a participação em grupos de apoio a candidatos está em ascensão nos dois aplicativos.
O estudo ouviu 3.113 usuários de aplicativos de mensagem em todas as regiões do Brasil, utilizando uma metodologia que combina abordagens qualitativas e quantitativas. Os dados foram segmentados com base em variáveis como idade, gênero, classe social e posicionamento político autodeclarado.
Segundo Heloisa Massaro, Diretora do InternetLab, os grupos de apoio a candidatos e partidos atuam como canais valiosos de mobilização tanto online quanto offline. “Há um refinamento nas estratégias de formação de grupos, tanto por parte dos apoiadores quanto das campanhas políticas”, destaca. Surpreendentemente, muitos desses grupos permanecem ativos após as eleições, permitindo que candidatos mantenham contato com eleitores e que estes acompanhem o trabalho de seus representantes.
Além disso, a pesquisa revelou que o status do WhatsApp se tornou uma ferramenta importante para os usuários se expressarem politicamente. Um impressionante 90% dos entrevistados afirmaram que consomem conteúdos através do status, enquanto 76% publicaram materiais, sendo que mais de 50% utilizaram essa funcionalidade para se engajar em questões políticas. Essa preferência se deve ao caráter menos intrusivo do status, que permite aos usuários expressar suas opiniões com maior liberdade.
“Diante do meu trabalho, não posso me posicionar politicamente, mas coloco uma foto com a camiseta do meu candidato no status”, comenta Marisa Villi, diretora da Rede Conhecimento Social. Essa estratégia de comunicação digital deve se manter nas eleições de 2026, com a adição da inteligência artificial na produção de conteúdo. A pesquisa indicou que cerca de 50% dos entrevistados já estavam utilizando a nova IA da Meta no WhatsApp, lançada pouco antes das entrevistas, com os jovens de 16 a 19 anos sendo os mais ativos, atingindo uma taxa de 62% de uso.
Contudo, um dado preocupante surgiu: 41% das pessoas admitiram ter compartilhado notícias sem verificar a fonte em 2024, rompendo uma tendência de queda observada desde 2022. Villi destaca que, embora exista uma consciência sobre os perigos das fake news e a importância da checagem de informações, persiste o desafio de garantir que as pessoas busquem fontes confiáveis, mesmo quando a informação é enviada por alguém de confiança.
WhatsApp versus Telegram: Diferentes Funções, Diferentes Públicos
A escolha entre utilizar o WhatsApp ou o Telegram para interações políticas varia conforme o objetivo da comunicação. Para muitos, o WhatsApp é visto como um espaço de comunicação com pessoas próximas, incluindo amigos, familiares e colegas, enquanto o Telegram é percebido como um ambiente mais propício para interações baseadas em interesses comuns.
A pesquisa também aponta discrepâncias nas formas de agrupamento em cada plataforma. Nos grupos do WhatsApp, as interações familiares (54%) e entre amigos (53%) predominam. Por outro lado, no Telegram, os grupos de notícias (23%), promoções (23%) e jogos (20%) competem com amigos (27%) e trabalho (23%). Esse policiamento do discurso no WhatsApp contrasta com a liberdade percebida no Telegram, onde os usuários se sentem mais à vontade para acompanhar conteúdos variados.
As tendências reveladas nesta pesquisa indicam uma transformação nas dinâmicas sociais e políticas nas plataformas de mensagens. Edições anteriores haviam apontado uma saturação nas interações virtuais, levando ao afastamento de alguns grupos. No entanto, nesta nova edição, observou-se que essa diminuição está resultando em uma curadoria mais cuidadosa das interações, com relatos de pessoas que conseguiram reatar laços familiares que haviam sido rompidos.
Quando se analisa a questão de gênero, nota-se que as mulheres tendem a temer mais as discussões políticas e se preocupam mais com o que compartilham nos grupos. Em contrapartida, os homens mostram-se mais confortáveis em expressar suas opiniões. Em comparação com o ano eleitoral de 2022, houve uma queda no recebimento e compartilhamento de conteúdos políticos em 2024, refletindo um comportamento mais contido e uma segmentação das discussões políticas em grupos de interesses específicos.

