Um Chamado pela Vida
“Meu objetivo é que ela consiga, pelo menos, ter contato com os filhos e participar da vida deles. Era o sonho dela ter uma família. Desde nosso segundo encontro, ela queria saber se eu desejava ter filhos, e eu respondi que sim. Não é justo que, por irresponsabilidade, alguém tire isso dela”, desabafou Paulo, o marido da paciente que se encontra em estado vegetativo após uma cirurgia realizada no dia 27 de agosto no Hospital Esperança, em Recife.
A operação visava a retirada de uma hérnia e de uma pedra na vesícula, problemas que foram descobertos durante exames de rotina. No relato, Paulo mencionou que a cirurgia foi precedida de um nervosismo incomum por parte de Camila, que não conseguiu dormir na noite anterior ao procedimento.
“Ela seria internada pela manhã e, à noite, receberia alta. Foi um dia antes que decidimos ir ao hospital, e ela estava visivelmente ansiosa”, revelou.
A família agora acusa a equipe médica de negligência junto ao Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe). Em resposta, o Hospital Esperança informou que os profissionais que realizaram a cirurgia foram escolhidos pela própria paciente e que prestaram todo o suporte necessário assim que souberam da intercorrência.
Desconfianças antes da Cirurgia
Paulo relatou ter notado situações estranhas antes do início da cirurgia, destacando a ausência da anestesista no quarto e como foi informado sobre o andamento do procedimento. “Estranhei a falta da anestesista, pois, normalmente, ela deve acompanhar o paciente ao quarto. Quando ligaram para mim durante a cirurgia, percebi que algo não estava bem. Se tudo corre bem, você é informado imediatamente”, explicou.
No decorrer da cirurgia, Paulo foi informado pela cirurgiã que Camila havia sofrido uma parada cardiorrespiratória que durou cerca de 15 minutos, mas que a equipe conseguiu reanimá-la e a transferiu para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). A partir desse momento, a família se viu obrigada a investigar o que realmente ocorreu durante o procedimento.
“Analisamos os parâmetros do monitor multiparamétrico, que fornece dados sobre a frequência cardíaca, respiratória e a saturação de oxigênio. Ficamos surpresos ao notar que, a partir da indução anestésica, o pulmão dela não estava sendo ventilado”, contou Paulo, frustrado.
Momentos Críticos Durante a Intervenção
Conforme o depoimento do marido, os registros do monitor mostravam que Camila permaneceu em apneia por mais de seis minutos, um fato alarmante, considerando que o prontuário médico indicava que o procedimento estava transcorrendo sem intercorrências. “Quando a cirurgiã chegou, a situação já era crítica. O alarme do oxigênio começou a disparar, e ninguém tomou providências. O coração dela, por falta de oxigênio, começou a desacelerar. Isso culminou na parada cardíaca”, relatou.
Paulo não poupou críticas ao registro feito no prontuário, onde a cirurgiã alegou que a cirurgia transcorreu normalmente. “Ela finalizou a operação com minha esposa em parada cardíaca, e ainda assim, registrou que tudo estava bem. Se isso não é uma intercorrência, não sei o que é”, expressou.
Após o término da cirurgia da vesícula, Camila foi diagnosticada com cianose, coloração que indica falta de oxigênio no corpo, momento em que as manobras de reanimação foram iniciadas. A família também levantou preocupações em relação ao desempenho da anestesista, descrita como inexperiente.
Dificuldades no Atendimento Pós-Cirúrgico
“Durante o transporte de Camila da sala de cirurgia para a UTI, novos erros ocorreram. Ela não foi levada com o respirador adequado; a anestesista se atrapalhou ao usar um aparelho de ventilação, enquanto manuseava o celular”, contou Paulo, demonstrando a indignação da família.
Camila Nogueira permanece em estado vegetativo há cinco meses, enquanto sua família luta para que ela possa, ao menos, interagir com os filhos. Paulo enfatizou o compromisso da família com a reabilitação. “Estamos focados em fisioterapia e terapia ocupacional, na esperança de que ela possa voltar a interagir com os filhos, mesmo que de forma limitada”, disse.
A família de Camila, por meio do advogado Paulo Maia, já entrou com representação no Cremepe, pedindo o afastamento das profissionais envolvidas durante a investigação de possível negligência médica e um processo criminal contra elas. “A família acredita que houve um crime contra a vida de Camila e busca por justiça para evitar que isso aconteça novamente”, concluiu.

