Desafios na Conquista do Sonho Universitário
No dia 29 de janeiro, durante as celebrações do Dia Nacional da Visibilidade Trans, Benedita Subrinho recebeu a tão esperada notícia: ela foi aprovada no curso de Direito da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). A felicidade se multiplicou quando soube que seu namorado, Gabriel, também foi aceito na mesma universidade, mas no curso de Geografia. Contudo, essa conquista foi ofuscada por uma preocupação financeira que surgiu poucos dias antes. A liquidação do Will Bank pelo Banco Central resultou no bloqueio do salário de Benedita, que agora enfrenta dificuldades para viajar até Campina Grande (PB) e realizar sua matrícula.
Para efetivar a matrícula, a UEPB exige que os alunos enviem documentos pela internet previamente. Benedita informou que já completou esse processo, mas a confirmação exige presença física. A distância entre Caruaru (PE), onde ela reside, e Campina Grande (PB) é de 130 quilômetros, com uma viagem de ônibus que pode levar entre 2h40 e 3h30. O custo da passagem é de R$ 55, totalizando R$ 110 para Benedita e o mesmo valor para Gabriel, resultando em R$ 220 apenas em passagens.
Outro desafio é a disponibilidade de horários da coordenação do curso para receber a documentação: apenas de manhã e à noite. Benedita teme não conseguir concluir a matrícula no turno da manhã, o que pode obrigá-la a permanecer em Campina Grande até a noite. “Talvez eu precise dormir lá e voltar na manhã seguinte”, revela. Ela tem apenas um dia de folga do trabalho para resolver essa questão, sendo esta segunda-feira (9). O prazo final para a matrícula é na terça-feira (10).
Diante dessa situação, Benedita lançou uma campanha de arrecadação online na plataforma “Campanha do Bem”, inicialmente pedindo R$ 250. No entanto, uma emergência odontológica recente a levou a aumentar esse valor para R$ 450, após uma extração dentária que gerou despesas com medicamentos. “Comprei R$ 250 de remédios, mas só recebo meu salário no dia 15”, conta ela. Até o momento, dez pessoas já contribuíram com a campanha, alcançando R$ 400, faltando apenas R$ 50 para atingir a meta, que não inclui despesas como alimentação.
Quem quiser ajudar pode fazer contribuições através do Pix 126 735 134 93 (CPF), utilizando uma conta da instituição Neon. A jovem, que era cliente do Will Bank, viu sua situação financeira se complicar após a liquidação da instituição em decorrência de um escândalo com o Banco Master, que fraudou o sistema financeiro em mais de R$ 23 bilhões. “Consegui pagar minhas contas até o dia 15, mas depois fiquei sem nada”, lamenta.
A Universidade como Esperança em Meio às Dificuldades
O retorno à academia sempre foi um desejo para Benedita, que enfrentou uma rotina intensa de trabalho e desafios nos últimos anos que tornaram a educação um objetivo distante. “Sempre quis fazer o Enem novamente, voltar à universidade e, se possível, sair de Pernambuco. Apesar das dificuldades, a universidade é um espaço mais acolhedor para pessoas trans e um investimento no meu futuro”, ressalta. Benedita, que trabalha 12 horas diárias para uma empresa de serviços online, se preparou para a UEPB utilizando a bagagem adquirida em sua primeira aprovação na UFPE e a base sólida de conhecimentos em português, matemática e física, obtida em cursos oferecidos pela Petrobras.
A jovem de 28 anos carrega consigo uma história de superação e resiliência. Expulsa de casa na adolescência ao assumir sua sexualidade, encontrou apoio em amigos de movimentos populares e trabalhou em diferentes funções até ser aprovada na UFPE para o curso de Educação Física. No entanto, sua trajetória foi marcada por dificuldades, desde agressões e estigmas sociais até problemas de saúde mental que impactaram seu desempenho acadêmico.
Ao longo dos anos, enfrentou situações adversas que a levaram a morar na rua e a se hospedar em casas de acolhimento para LGBTs em Recife. Após o acolhimento de sua mãe, Benedita conseguiu recomeçar sua vida em Caruaru, onde, com maturidade, encontrou um novo trabalho com carteira assinada. Porém, as constantes experiências de transfobia contribuíram para sua demissão. Mesmo diante de desafios financeiros, ela nunca desistiu de seus estudos e alcançou a aprovação em Direito, vislumbrando um futuro repleto de possibilidades.
Os 130 quilômetros até Campina Grande não parecem ser um obstáculo intransponível para quem já superou tantas barreiras. Benedita acredita que, com apoio, poderá finalmente concretizar seu sonho acadêmico e construir um futuro digno.

