A Importância do Carnaval na Cultura Brasileira
O Carnaval exerce uma magia singular no Brasil, e hoje abro espaço para a voz de Pio Figueroa, meu conterrâneo, amigo e um experiente fotógrafo e DJ, que traz uma reflexão valiosa sobre essa festa. Segundo ele, o ponto facultativo do Carnaval revela um país que exalta intensa e apaixonadamente sua cultura, mas ainda hesita em reconhecer isso como um direito.
A realidade é que, após um ano, voltamos a nos entregar à folia: é Carnaval! Essa celebração, profundamente enraizada na cultura brasileira e essencial para a vida social, continua a não ser oficialmente reconhecida como feriado nacional. Embora as ruas se encham de foliões e a vida pare em meio à festividade, juridicamente, essa pausa é apenas um ponto facultativo. Ou seja, se você não trabalhar, é uma benevolência; se for ao trabalho, não é uma maldade, mas uma questão de lei.
Curiosamente, o Brasil nunca teve a audácia de oficializar essa celebração. Reconhecer o Carnaval como feriado implicaria em admitir que a folia faz parte dos direitos culturais do povo, um componente essencial da vida no país. Isso exigiria uma mudança de perspectiva, onde a celebração, o descanso e a ocupação do espaço público são vistos como expressões políticas legítimas.
O Carnaval e o Limbo do Reconhecimento
A insistência em manter essa festa em um espaço nebuloso é notável. O governo não proíbe a celebração, mas também não garante seus direitos, criando um ambiente de vigilância. Isso gera um desconforto, já que a festa escoa pela cidade em uma alegria vibrante, que contrasta com a visão de um país que valoriza o trabalho, o consumo e a celebração apenas com autorização.
É fácil pensar no calendário como uma ferramenta neutra, um simples marcador dos dias que se passam. No entanto, o calendário é uma construção histórica, que reflete disputas, interesses e acordos sociais. Ele não serve apenas para organizar o tempo, mas também para reconhecer o que merece ser celebrado e o que deve ser esquecido. A partir da Proclamação da República, em 1889, o Brasil passou a ter um calendário mais definido, que buscava criar uma identidade nacional, sem a necessidade de uma coroa ou religião dominante.
Assim, surgiram festividades nacionais que moldaram nossa percepção coletiva. O calendário passou a ser um instrumento poderoso de afirmação de valores e memórias. A inclusão de datas como o Dia do Trabalho, que celebra a luta por direitos, refletiu essa mudança, e mais recentemente, a aprovação da Lei nº 14.759, que institui o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, foi um passo significativo nessa direção.
A Luta pelo Reconhecimento Cultural
Essa conquista não foi simples. A aprovação do feriado da Consciência Negra simboliza uma luta histórica por reconhecimento e liberdade, ressaltando a importância do povo negro na formação da sociedade brasileira. Reconhecer essa data é uma maneira de confrontar as opressões persistentes e de afirmar o valor das histórias que não podem ser ignoradas.
No entanto, essa luta foi marcada por resistências. Argumentos racistas tentaram barrar o reconhecimento da data, mas, ao final, as alegações foram derrotadas. Feriados não são apenas datas no calendário; eles têm a função de marcar o tempo social, fortalecer identidades coletivas e lembrar que a vida deve ser vivida não só em termos utilitários, mas também simbólicos.
O Carnaval, então, transcende essas funções. Ele gera pertencimento, movimenta economias e reinventa a maneira como nos relacionamos com o espaço público. No entanto, ainda é relegado a um limbo: grande demais para ser ignorado, mas livre demais para receber o reconhecimento que merece.
O ponto facultativo do Carnaval, portanto, é um reflexo de um país que celebra sua cultura de forma vibrante, mas que hesita em transformá-la em um direito garantido. Enquanto isso, a nação se une em celebração e, como muitos já afirmaram, o Carnaval, mesmo sem o selo oficial, é uma festa que se estende ao longo do ano.

