Medidas Avançadas e Polêmicas no Pacote Feminino
A Câmara dos Deputados do Brasil aprovou um conjunto de projetos que visam fortalecer os direitos das mulheres. Contudo, o pacote, que chega em meio a críticas sobre sua eficácia, inclui tanto iniciativas simbólicas quanto medidas de maior impacto. De acordo com Cida Gonçalves, ex-ministra das Mulheres, é fundamental que pautas prioritárias, como a criminalização da misoginia, sejam tratadas com a urgência que o assunto demanda.
Todo ano, o Congresso aproveita a aproximação do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, para enfatizar a importância de pautas femininas. Este ano, a Câmara aprovou 16 projetos relacionados a temas que impactam a vida das mulheres. Entre as propostas, algumas têm sido alvo de debates acalorados. Por exemplo, a liberação do uso de spray de pimenta por mulheres a partir dos 16 anos, que exige autorização dos responsáveis para a aquisição. No entanto, especialistas alertam que o uso do spray pode ser arriscado, especialmente em situações com criminosos armados, citando casos trágicos, como o de uma jovem que perdeu a vida após reagir a um assalto com o produto.
Avanços na Proteção às Vítimas de Violência
Um dos projetos mais celebrados é a medida que institui o uso de tornozeleiras eletrônicas para agressores em casos de violência doméstica. Esta proposta, apresentada pela deputada Fernanda Melchionna (PSOL), prevê que o monitoramento eletrônico se torne a norma, e não a exceção, no combate à violência contra a mulher. Com a nova regulamentação, a tornozeleira passaria a ser uma medida obrigatória em determinados casos, oferecendo maior proteção às vítimas.
Juliana Tocunduva, promotora de Justiça que atua na Casa da Mulher Brasileira em São Paulo, considera essa legislação crucial para prevenir a escalada da violência. Ela ressalta que a implementação dessas medidas pode evitar tragédias resultantes de abusos e feminicídios.
Outro avanço significativo é a criação de um tipo penal para a lesão corporal motivada pelo gênero, com penas variando entre 4 a 8 anos de prisão. A proposta, de autoria da deputada Nely Aquino (Podemos), também seguirá para o Senado para aprovação.
Desafios e Resistências na Política Feminina
Entretanto, nem todas as demandas da bancada feminina têm encontrado apoio unânime. A deputada Jack Rocha (PT-ES), coordenadora-geral da Secretaria da Mulher da Câmara, destacou a necessidade de um fundo permanente de combate à violência contra a mulher. Para ela, a crise de feminicídios no Brasil exige uma resposta robusta da política pública, com a destinação de recursos substanciais para a construção de uma rede de proteção eficiente.
No último ano, o Brasil registrou um aumento alarmante no número de feminicídios, com 1.470 casos reportados, o maior número desde a criação da legislação que penaliza o crime. A cientista social Luanna Tomaz de Souza aponta que a falta de investimento em políticas públicas tem contribuído para a precarização das ações de proteção às mulheres.
Além disso, existem atualmente 36 projetos de lei na Câmara que buscam criminalizar comportamentos misóginos. No Senado, uma proposta que equipara a misoginia ao crime de racismo foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça, mas enfrenta emendas que podem atrasar sua votação.
Iniciativas e Reconhecimento de Ações Positivas
A senadora Augusta Brito (PT-CE), que também é responsável pelo projeto que criou o prêmio Laço Branco, destacou a importância de reconhecer homens que se destacam no combate à violência de gênero. Embora essa proposta tenha gerado controvérsias, Brito esclarece que o objetivo do prêmio não é ofuscar o protagonismo feminino, mas sim valorizar aquelas iniciativas que buscam engajar os homens na luta contra a violência.
O pacote de projetos ainda inclui diversas outras iniciativas relevantes, como a priorização de vítimas de agressão no Sistema Único de Saúde (SUS) para tratamentos psicológicos e cirurgias reparadoras, além do reconhecimento do Dia Nacional das Mulheres na Construção Civil.
Por fim, a Câmara também aprovou a Mobilização Nacional dos 21 dias de Ativismo pelo Fim da Violência e do Racismo contra as Mulheres, buscando intensificar o combate à violência de gênero anualmente.

