Problemas nas Creches Municipais do Recife
Quatro mães de diferentes bairros do Recife compartilham uma mesma preocupação: a falta de profissionais e materiais nas creches municipais. Desde o começo do ano letivo, em fevereiro, os alunos não conseguiram frequentar as aulas com horários completos. Os relatos apontam que essa situação decorre da escassez de Auxiliares de Desenvolvimento Infantil (ADIs), que estão com seus quadros incompletos ou envolvidos em campanhas salariais.
Enquanto o prefeito João Campos (PSB) exibe realizações da prefeitura nas redes sociais, como a inauguração de novas creches, pais e educadores expressam suas reivindicações nos comentários das postagens do prefeito. Além da carga horária insuficiente que afeta a rotina familiar, outro ponto de insatisfação é a espera por fardamentos, materiais escolares e livros, mesmo passados um mês e meio do início do ano letivo.
No Jordão Alto, zona sul da cidade, a Creche Cristo Rei tem liberado os alunos mais cedo desde o início das aulas. Joserlania Balbino, diarista com uma filha de dois anos na creche, destaca que essa situação impacta diretamente sua capacidade de trabalhar. “Não conseguimos trabalhar e estar na creche às 11h30 para pegar as crianças. Isso está complicando a vida dos pais que precisam garantir uma renda”, lamenta.
A Situação em Boa Viagem
A situação na Creche Escola 14 Bis, em Boa Viagem, é igualmente preocupante. Os responsáveis foram avisados de que as aulas funcionariam em rodízio, com três turmas na quarta-feira e outras três na quinta. Apesar do rodízio, o atendimento nos dias indicados deveria ser “normal”, das 7h às 16h.
As mudanças constantes nos horários das aulas tornam difícil a rotina dos pais. Valquiria Balbino, mãe de um menino de um ano e nove meses, afirma que frequentemente precisa pagar alguém para cuidar de seu filho enquanto trabalha. “Moro de aluguel e preciso usar meu salário para pagar alguém que fique com ele à tarde”, conta.
Além dos problemas de horário, as creches enfrentam questões estruturais. Aline Torres, mãe de um aluno com Transtorno do Espectro Autista (TEA) na Creche 14 Bis, relata que, embora a inauguração da creche tivesse sido prometida para 2025, ocorreu apenas este ano e já apresenta vazamentos e alagamentos. “Quando finalmente é inaugurada, não temos horário integral, muitas vezes não tem aula e faltam profissionais. É muito frustrante”, expressa Aline, que enfatiza a dedicação da equipe da creche, que se esforça para oferecer melhorias, mas enfrenta obstáculos devido à falta de apoio.
Desafios em Outras Regiões
Os problemas não são apenas nas instituições da zona sul. No Engenho do Meio, a Creche Ceape também enfrenta dificuldades, com aulas completas apenas em dois dias da semana. Uma mãe anônima relatou que, na última semana de março, a creche ficou sem aulas na segunda e terça-feira. “É um sistema que funciona, mas precisamos ter sempre uma alternativa para cuidar de nossos filhos”, desabafa.
A Necessidade dos Auxiliares de Desenvolvimento Infantil
No início do ano, o prefeito anunciou a adição de 1.800 novas vagas em creches, somando 18 mil oportunidades para a educação infantil. Entretanto, os ADIs enfrentam condições precárias de trabalho. Gabrielli Silva, diretora interina da Associação dos Auxiliares de Desenvolvimento Infantil do Recife (Assadir), destaca que a principal reivindicação é o reconhecimento da categoria, que luta pela regulamentação da Lei Federal 15326/26 no município. Isso garantiria que os ADIs fossem formalmente reconhecidos como professores de educação infantil, com a exigência de formação adequada.
Em 2024, um novo concurso estabeleceu que, para ser ADI, é necessário ter formação em Magistério, Pedagogia ou licenciatura plena. Contudo, a realidade é que esses profissionais não recebem salários condizentes com sua expertise. O salário inicial para um ADI com carga de 40 horas semanais é R$ 2.180,56 para quem possui diploma de Magistério e R$ 2.278,68 para graduados.
Gabrielli menciona a importância de um novo concurso público, dado o déficit de profissionais. “A desvalorização da categoria e a falta de reconhecimento na carreira fazem com que muitos ADIs deixem suas posições em busca de melhores salários”, comenta. A situação se agrava com a sobrecarga de trabalho, onde muitos ADIs acabam atendendo as crianças sozinhos na sala de aula, sem suporte adequado.
Desafios Adicionais e Denúncias
Além dos desafios enfrentados, uma denúncia sobre a falta de Agentes de Apoio ao Desenvolvimento Escolar Especial (AADEE) foi arquivada pelo Ministério Público de Pernambuco, que investigou o acúmulo de funções de funcionários terceirizados nas creches. A falta de respostas da prefeitura sobre a distribuição de materiais escolares e fardamentos também foi um ponto de preocupação levantado por pais e responsáveis.
As mães continuam aguardando uma solução para os problemas que afetam a educação de seus filhos e a rotina de suas famílias, na esperança de que a situação melhore e que a educação infantil no Recife seja realmente priorizada.

