A trajetória política de Clarissa Tércio
Flávio Bolsonaro (PL), senador e pré-candidato à presidência, está em busca de um nome para sua chapa vice nas próximas eleições. Após a recusa da senadora e empresária do agro Teresa Cristina (PP), que ele considerava sua “sonho de consumo”, Flávio voltou seu olhar para o Nordeste. Nesse cenário, surge o nome de Clarissa Tércio (PP), uma deputada federal em seu primeiro mandato, conhecida por sua atuação como comunicadora e por ser herdeira de um agrupamento evangélico influente.
Em 2020, enquanto ainda era deputada estadual, Clarissa e seu esposo, Júnior Tércio (PP), se envolveram em uma polêmica tentativa de impedir que uma menina de apenas 10 anos, vítima de abuso, realizasse um aborto legal. A criança, oriunda do Espírito Santo, foi estuprada por familiares durante anos. Sua situação foi revelada quando sua mãe a levou a um hospital e descobriu que ela estava grávida, um quadro que representava grave risco à saúde da menina.
Um caso emblemático de violação de direitos
As razões que garantiam o direito da menina ao aborto eram claras: a gravidez era resultado de um crime hediondo e ainda colocava sua vida em risco. Contudo, os hospitais no Espírito Santo negaram o procedimento, obrigando a mãe a recorrer à Justiça. A decisão judicial enviou a criança ao Recife para a realização do aborto, mas novos problemas surgiram.
A influenciadora e militante de direita Sara Geromini, em um ato de extremo conservadorismo, divulgou o local do procedimento, convocando protestos de grupos religiosos. O casal Tércio, junto a outros políticos conservadores, fez parte das manifestações que tentaram impedir a realização do aborto. Registros mostram Clarissa envolvida no tumulto, que buscava forçar a entrada de aliados no hospital.
Os gritos de “assassinos” endereçados aos profissionais de saúde, especialmente ao médico Olímpio Bezerra, evidenciam uma pressão para que considerassem “salvar as duas vidas”, a frase utilizada para forçar a manutenção da gravidez da criança. Em novembro de 2025, Tércio apoiou uma proposta de lei polêmica que revogava os atendimentos sigilosos e humanizados a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual, direitos que até então eram garantidos.
Projetos e polêmicas na Câmara
A deputada também propôs um projeto de lei que exige a afixação de cartazes em estabelecimentos de saúde, desestimulando mulheres a realizarem abortos legais. De acordo com sua sugestão, os cartazes deveriam alertar sobre os riscos da interrupção voluntária da gravidez, incluindo alegações sobre infertilidade e riscos à saúde da mulher.
Em um episódio recente, em janeiro de 2023, Clarissa Tércio gerou controvérsia ao apoiar publicamente os manifestantes que depredaram prédios públicos em Brasília. Essa postura a colocou sob investigação do Supremo Tribunal Federal (STF), embora a apuração não tenha encontrado indícios de envolvimento além de suas postagens nas redes sociais.
Com a possibilidade de ser escolhida como vice na chapa presidencial de Flávio Bolsonaro, Tércio expressou, em abril, sua alegria em ter seu nome considerado por lideranças políticas que compartilham suas visões.
Perfil e influência religiosa
Com 41 anos e natural de Jaboatão dos Guararapes, Clarissa Tércio é filha do pastor Francisco Tércio, que lidera o ministério Novas de Paz, uma denominação da Assembleia de Deus. Este grupo religioso, fundado em 1997, já dispõe de mais de 150 templos em Pernambuco e coordena uma comunidade terapêutica para dependentes químicos.
A família também possui a Rádio Novas de Paz, que tem ampla audiência e se envolveu em polêmicas, como a disseminação de informações falsas sobre a pandemia de Covid-19. Em 2020, Clarissa começou a distribuir cloroquina em comunidades, apesar da ineficácia do medicamento no combate ao coronavírus, conforme evidências científicas.
Clarissa Tércio foi eleita pela primeira vez em 2018 e, em 2022, obteve 240 mil votos para a Câmara dos Deputados. Seu esposo, Júnior Tércio, também se destacou na política, sendo eleito deputado estadual com 183 mil votos. A disputa eleitoral em Jaboatão, cidade onde ambos atuam, reflete uma luta pelo voto evangélico e conservador.
Por fim, tentamos contato com a deputada para obter uma posição sobre os temas discutidos, mas até este momento não recebemos resposta. O espaço para manifestação permanece aberto.

