Mudanças Necessárias nas Metas do PNE
As definições sobre os conhecimentos que os estudantes devem adquirir para serem considerados nas diferentes categorias de aprendizagem — abaixo do básico, básico, adequado e avançado — ainda estão em elaboração pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Atualmente, muitos gestores e especialistas utilizam como referência as diretrizes elaboradas pelo pesquisador Francisco Soares, reconhecido por sua expertise em avaliação educacional e ex-presidente do Inep. Há a expectativa de que os novos patamares a serem divulgados pelo Inep não apresentem significativas alterações em relação aos parâmetros já adotados.
A avaliação do desempenho dos alunos é frequentemente baseada nos resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Por exemplo, em Matemática, estudantes que obtêm notas entre 225 e 300 pontos — em uma escala que vai até 500 — são classificados como estando no nível básico de aprendizagem. No entanto, isso significa que esses alunos apenas aprenderam o que se esperava deles ao final do ensino fundamental, resultando em um déficit de aprendizado de cerca de três anos. Como consequência, ao atingirem a maioridade, muitos não conseguem realizar tarefas cotidianas essenciais, como interpretar um texto de opinião ou calcular um reajuste percentual.
Este é um período crítico para alcançar as metas estabelecidas, uma vez que os alunos frequentemente chegam à etapa final de sua educação com uma série de defasagens. E, ao final deste ciclo, eles deixaram a escola sem uma nova oportunidade de aprendizado. Dados do Todos Pela Educação apontam que 27% dos alunos ao final do 5º ano, 38% dos que completam o ensino fundamental e 64% dos diplomados no ensino médio estão abaixo do nível básico. Por outro lado, a porcentagem de estudantes que atinge o nível adequado de aprendizagem é alarmantemente baixa: 37% no 5º ano, apenas 13% no 9º ano e apenas 5% ao término do ensino médio.
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Metas do Novo PNE e a Importância do Investimento
As novas diretrizes do PNE estabelecem que todos os alunos devem concluir os anos iniciais e finais, além do ensino médio, com o nível básico de aprendizagem até 2035. Além disso, o documento estipula metas mínimas para o número de estudantes que devem alcançar o nível adequado: 90% ao finalizar o 5º ano, 85% ao término do 9º ano e 80% ao concluir o 3º ano do ensino médio.
A deputada Tabata Amaral (PSB-SP), presidente da comissão responsável pela elaboração do PNE, afirma: “Garantir que todos os alunos aprendam o básico não é uma ousadia, mas sim o mínimo que o Estado deve assegurar”. Ela ressalta que é crucial direcionar investimentos adequados, além de implementar um sistema de monitoramento eficaz dos resultados.
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No evento Educação Já, promovido pelo Todos Pela Educação, o pesquisador Guilherme Lichand, da Escola de Educação da Universidade de Stanford, apresentou um estudo sobre as defasagens encontradas na rede estadual de São Paulo. Ele destacou que o número de alunos abaixo do nível básico é alarmante, e que esses estudantes apresentam um amplo espectro de níveis de aprendizagem, o que torna mais difíceis as ações de recuperação.
O estudo revelou que mais da metade dos alunos que estão abaixo do básico no 9º ano do ensino fundamental possuem conhecimentos equivalentes ao 2º ano, que é o final do ciclo de alfabetização. Além disso, cerca de 10% ainda estão no nível de educação infantil. “É fundamental evitar que essas defasagens se acumulem. Se um aluno chega ao 9º ano com a aprendizagem de um estudante do 2º ano, isso indica que a escola falhou em sua missão”, alerta Lichand. Ele observa que o estado do Mississippi, nos EUA, tem sido modelo em manter seus alunos que ainda não aprenderam a ler ao final do ciclo de alfabetização, evitando assim a promoção sem aprendizado efetivo.
Comparações com Padrões Internacionais
Mesmo as redes de ensino que se destacam nas avaliações nacionais ainda estão muito atrás das melhores do mundo. Por exemplo, a cidade de Sobral (CE) obteve resultados no Pisa For Schools que a colocaram ligeiramente acima do México, mas abaixo do Azerbaijão em Matemática. Em leitura, o desempenho foi comparable ao da Ucrânia. Além disso, em todos os quesitos, Sobral apresentou índices inferiores aos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e ao Chile, que se destaca na América do Sul.
Desde a década de 1990, o Brasil implementou políticas consistentes que possibilitaram a quase universalização das etapas obrigatórias de ensino. De acordo com o livro “O ponto a que chegamos”, do colunista do GLOBO Antônio Gois, em 1985, apenas 29% das crianças de 4 a 5 anos estavam na educação pré-escolar, enquanto 80% frequentavam o ensino fundamental e apenas 14% estavam matriculados no ensino médio. Em 2020, esses números subiram para 94%, 98% e 75%, respectivamente.
Por fim, especialistas argumentam que é essencial mudar o foco principal das políticas educacionais para o aprofundamento da aprendizagem, sem deixar de lado as metas de acesso. O próprio PNE mantém objetivos voltados para garantir que pelo menos 90% dos alunos concluam o ensino médio na idade adequada.

