Debate no STF sobre Leis Antifacção e Dosimetria
A discussão sobre a sobreposição entre as leis antifacção e a dosimetria, ambas aprovadas pelo Congresso, promete movimentar os tribunais superiores. Recentemente, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) relataram a expectativa de um intenso debate sobre as divergências nas regras de progressão de pena estabelecidas por essas legislações. O Partido dos Trabalhadores (PT), junto com seus aliados, planeja ações judiciais para contestar a validade das leis, alegando violações de proporcionalidade e segurança jurídica.
Os integrantes do STF reconhecem que a Corte terá que se debruçar sobre a questão, dado que o PT e outros grupos políticos pretendem questionar os limites da redução de penas, especialmente no contexto das condenações relacionadas aos eventos de 8 de janeiro. Embora ambas as leis tenham recebido aprovação legislativa, suas disposições para a progressão de pena diferem significativamente, o que pode forçar os magistrados a esclarecer como as duas devem ser aplicadas e em quais circunstâncias o endurecimento das penas será imposto aos réus.
Até o momento, alguns ministros têm demonstrado disposição para avaliar as questões que surgirão no STF. Há vozes que indicam a possibilidade de uma análise mais flexível, que permitiria a aplicação da nova legislação de forma individualizada, semelhante ao que ocorre na dosimetria. Essa abordagem poderia reduzir o risco de que uma das legislações seja completamente derrubada.
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No entanto, a forma como as leis foram elaboradas e o tempo de vigência de cada uma delas também está em discussão. O projeto que visa a redução das penas dos condenados pelo 8 de janeiro foi aprovado em dezembro do ano passado, como uma alternativa à proposta de anistia defendida por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Essa legislação suavizou as penalidades, estabelecendo que as punições para crimes de abolição violenta do estado democrático de direito e golpe de estado não podem ser cumulativas, facilitando a progressão de pena para os condenados por delitos contra o Estado de Direito.
Em contrapartida, a lei antifacção, que se tornou o centro de um intenso embate entre a base governista e a oposição, foi aprovada em fevereiro deste ano com a justificativa de endurecer as medidas contra o crime organizado. Essa nova legislação restringiu as saídas temporárias e passou a classificar a participação em facções criminosas como crime, aumentando as penas. Ela também trouxe um endurecimento nas regras de progressão de pena.
Embora a lei da dosimetria tenha sido aprovada em dezembro, ela foi vetada pelo presidente Lula. Enquanto isso, o projeto antifacção foi sancionado e já está em vigor, criando um cenário de conflito jurídico. A derrubada do veto presidencial à lei que facilita a progressão de pena pode entrar em choque direto com a norma que impõe um endurecimento dessa mesma progressão.
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Esse conflito já havia sido tema de discussão no Congresso desde o final do ano passado, quando os dois projetos estavam em tramitação paralela. A confusão gerada por essas iniciativas legislativas foi uma das razões que levaram ao adiamento da discussão do projeto antifacção para o início de 2026.
Na análise do veto ao projeto da dosimetria, Alcolumbre, presidente do Senado, enfatizou que buscaria uma solução para a questão da sobreposição. A alternativa encontrada foi a de derrubar o veto de Lula e considerar nulos trechos da lei que alteravam a Lei de Execução Penal e as disposições sobre progressão de pena.
Alcolumbre argumentou que sua decisão levou em conta a “temporalidade” das normas e a “intenção” do Congresso ao legislar. Assim, a discussão no STF sobre a dosimetria poderá inaugurar mais um capítulo na relação já tensa entre a Corte e o Legislativo.
Na última semana, durante uma sessão de julgamento, ministros expressaram suas insatisfações em relação a políticos que, segundo eles, estão utilizando ofensas à Corte e a seus membros como forma de angariar votos nas eleições.
O PT, por sua vez, já se prepara para apresentar ações ao STF, conforme noticiado anteriormente pelo GLOBO. Uma ala do STF havia percebido que não seria conveniente para o tribunal obstruir a tramitação do texto aprovado, respeitando as prerrogativas do Congresso. Apesar disso, a proposta passará pela análise do Supremo, uma vez que diversos partidos já anunciaram a intenção de contestá-la.
Ainda em fase de elaboração, as ações que o PT e a Federação Psol-Rede planejam levar à Corte já indicam alguns dos argumentos que utilizarão, incluindo a alegação de violação da proporcionalidade, além de questionamentos relacionados à segurança jurídica e vedação ao retrocesso. Até o momento, nenhuma das legendas mencionou se pretende contestar a votação do Congresso que resultou na derrubada do veto presidencial.

