quinta-feira 5 de fevereiro

Uma Realidade Preocupante no Mercado de Trabalho

Mais de 2 mil profissões no Brasil estão relacionadas a afastamentos dos trabalhadores devido a transtornos mentais. Entre as ocupações mais afetadas, destacam-se funções como vendedor do comércio varejista, faxineiro e auxiliar de escritório. Esses profissionais, em sua maioria, lidam diretamente com o público e desempenham papéis essenciais no dia a dia da sociedade.

Em 2025, cerca de 500 mil pessoas foram afastadas do trabalho por questões de saúde mental, conforme dados do Ministério da Previdência Social obtidos pelo g1. Este é o segundo ano consecutivo em que o Brasil atinge esse triste recorde, seguindo o pico já registrado em 2024.

Para compreender a distribuição deste cenário no mercado, o g1 analisou uma lista com mais de 2 mil profissões, elaborada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em colaboração com o Ministério Público do Trabalho (MPT). Essa análise foi feita com base nos dados do INSS, abrangendo o período de 2012 a 2024.

Profissões em Destaque

No topo da lista de profissões com maior número de afastamentos, encontramos vendedores varejistas, faxineiros, auxiliares de escritório, assistentes administrativos e alimentadores de linha de produção. Entretanto, o que une essas profissões é um padrão preocupante, conforme apontam os especialistas: a predominância de contratos de trabalho frágeis, pressão intensa por metas, jornadas longas e exposição a riscos significativos, como a violência urbana, que afeta motoristas e vigilantes.

O procurador do MPT, Raymundo Lima Ribeiro Júnior, destaca que a precariedade dos contratos e a sobrecarga de trabalho são fatores cruciais para entender por que essas categorias têm sido as mais impactadas. “As relações de trabalho têm se tornado cada vez mais instáveis, e isso contribui para o aumento dos afastamentos”, explica.

Odete Cristina Pereira Reis, auditora fiscal do trabalho, completa essa análise, afirmando que as profissões mais afetadas são aquelas com menor poder de negociação e que dependem fortemente do trabalho contínuo para garantir a renda familiar. Ela observa que o ranking revela um padrão que vai além de casos isolados.

Um Cenário em Expansão

Os dados indicam que, em 2025, o Brasil contabilizou cerca de 4 milhões de afastamentos do trabalho por doenças, o maior número registrado nos últimos cinco anos. Dentre eles, mais de 546 mil afastamentos foram por questões relacionadas à saúde mental, um aumento de 15% em relação ao ano anterior.

As principais causas estão ligadas a diagnósticos de ansiedade e depressão. Os transtornos de ansiedade lideram a lista, com 166.489 licenças em 2025, seguidos pelos episódios de depressão, que somaram 126.608 afastamentos. O Ministério da Previdência também chamou atenção para outras condições que mais geraram concessões de benefício, incluindo transtorno bipolar, dependência química, estresse grave e alcoolismo, todas com alta em relação ao ano anterior.

Impacto Econômico Significativo

Embora o INSS não tenha revelado especificamente quanto de sua verba foi destinada a licenças por saúde mental, estima-se que o custo total possa ter chegado a quase R$ 4 bilhões em 2025, considerando a média de três meses de afastamento, com um pagamento médio de R$ 2.500. De acordo com as estatísticas, as mulheres foram as mais afetadas, representando cerca de 63% dos casos de afastamento.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que a situação é alarmante, com estimativas de que 12 bilhões de dias úteis são perdidos globalmente todos os anos devido à depressão e ansiedade, resultando em uma perda econômica de US$ 1 trilhão anualmente. Wagner Gattaz, psiquiatra especialista em saúde ocupacional, ressalta que os transtornos mentais geram um custo significativo para as empresas, representando cerca de 6% do total da folha de pagamento.

Desafios na Implementação de Normas de Segurança

Recentemente, o governo anunciou a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que pretende abordar também os riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Essa norma vai permitir que o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) fiscalize as condições de trabalho, aplicando multas em casos de violação. Contudo, a implementação dessas mudanças foi adiada após pressão de setores patronais, gerando preocupação entre os especialistas.

A pressão em torno da norma reflete a urgência de ações para mitigar o aumento dos afastamentos por saúde mental. “Precisamos de intervenções imediatas para lidar com essa crise”, conclui Gattaz.

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