O Distanciamento Entre Eleitores e o Legislativo
Uma pesquisa recente elaborada pelo Núcleo de Inteligência de Mercado do Centro Universitário Frassinetti do Recife (UniFafire) trouxe à tona um fenômeno intrigante no comportamento político dos eleitores da Região Metropolitana do Recife (RMR). Embora a participação eleitoral seja expressiva e a memória sobre os votos para cargos do Executivo seja ampla, o estudo revela um significativo afastamento em relação aos representantes do Legislativo, um fenômeno que tem sido denominado como “apagão de memória legislativa”.
O levantamento, que ouviu 801 eleitores da RMR entre os dias 17 de novembro e 4 de dezembro de 2025, foi realizado em diversos bairros e municípios da região. Com um nível de confiança de 95% e uma margem de erro de 3,5 pontos percentuais, os dados indicam que 80,77% dos entrevistados confirmaram ter votado no primeiro turno das eleições de 2022. Segundo João Paulo Nogueira, coordenador da pesquisa, a proximidade entre os números obtidos e os índices oficiais de comparecimento em Pernambuco demonstra a robustez metodológica do estudo. “A sondagem conseguiu reproduzir com precisão o comportamento real do eleitorado, o que dá segurança para interpretar os demais dados”, destaca.
Embora a taxa de participação seja alta, a lembrança dos votos para os cargos do Legislativo diminui drasticamente. A pesquisa mostra que 64,32% dos eleitores não conseguem recordar em quem votaram para deputado estadual, enquanto 69,83% não lembram do voto para deputado federal e 64,17% não têm memória do senador escolhido. Para Felipe Ferreira Lima, cientista político e professor de Direito Eleitoral da UniFafire, essa situação revela fragilidades estruturais na democracia representativa. “O eleitor participa do processo eleitoral, mas se desconecta do acompanhamento do mandato. Sem memória do voto, enfraquece-se a fiscalização e a responsabilização dos eleitos”, analisa.
A Polarização e Seu Impacto nas Lembranças de Voto
O contraste se torna ainda mais evidente quando se observa a lembrança do voto para cargos executivos. O estudo revela que a lembrança do voto chega a 67,53% na eleição para governador e impressionantes 88,21% na Presidência da República. Segundo Felipe Ferreira Lima, isso reflete a centralidade do Executivo no debate público, especialmente em um ambiente de intensa polarização política nacional. Além disso, o estudo revela que, entre os eleitores que recordam em quem votaram, a intenção de repetir o voto ultrapassa os 70% no caso dos deputados estaduais e federais. No entanto, para o governo estadual, a intenção se mostra mais dividida e volátil.
A pesquisa também analisa o perfil ideológico dos eleitores da RMR, destacando um empate técnico entre Direita (23,81%) e Esquerda (23,68%). Notavelmente, 31,08% dos entrevistados afirmam não se identificar com nenhum rótulo ideológico. Esse cenário acende um alerta social importante, já que 39,83% dos eleitores relatam ter sofrido discriminação por conta de suas convicções políticas, evidenciando que a polarização vai além do âmbito eleitoral e impacta as relações sociais, especialmente com as eleições de 2026 se aproximando.
