quinta-feira 30 de julho

Uma distopia com raízes no presente

O filme “Aquele que Viu o Abismo”, protagonizado e co-dirigido pelo músico Negro Leo em parceria com Gregorio Gananian, estreia no Cinema da Fundação nesta quinta-feira (30). A obra mergulha em uma ficção científica que parece menos futurista e mais um espelho do mundo atual, apresentando um cenário distópico onde a angústia e a apatia prevalecem. A trama inicia com o protagonista tentando tirar a própria vida e, ao falhar, sofrendo um ferimento na perna. A partir daí, ele é perseguido por uma poderosa multinacional que promete a vida eterna, desencadeando uma narrativa fragmentada e abstrata.

Estilo experimental e sensação de caos

Vencedor do Troféu Carlos Reichenbach na 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em 2024, o filme destaca-se pelo seu estilo experimental tanto visual quanto sonoro. Desde a abertura, a produção utiliza imagens cotidianas que refletem a confusão e o caos da vida urbana, intercaladas com as sensações do personagem principal. O uso de múltiplos idiomas — português, inglês e chinês — e locações diversas ao redor do mundo reforça a sensação de uma lógica temporal e espacial solta, ampliando a percepção de um mundo fragmentado.

Apreensão e apatia diante do caos social

Negro Leo e Gregorio Gananian exploram um excesso estilístico que traduz a ansiedade do mundo atual e a apatia diante da crise social. A narrativa demonstra como a informação é abundante, mas, paradoxalmente, carente de significado real. Contudo, essa ambição acaba enfraquecendo o filme, que, ao longo do enredo, corre o risco de banalizar suas próprias ideias formais e narrativas. A tentativa de construir um ensaio sobre o imperativo da artificialidade na vida humana, a violência da globalização e o estado do mundo perde força, tornando-se genérica em alguns momentos.

A força estética da limitação orçamentária

Assim como outras produções brasileiras recentes de ficção científica, como “Futuro Futuro” e “Jamex e o Fim do Medo”, “Aquele que Viu o Abismo” transforma suas limitações financeiras em mérito. Os recursos modestos são convertidos em escolhas estéticas que fortalecem os temas do filme, que se apoia em um texto com tom cada vez mais existencial. A experiência sensorial intensa que a obra proporciona também suscita debates interessantes sobre a linguagem e a comunicação na contemporaneidade.

Um convite à reflexão, apesar das limitações

No entanto, apesar da superfície provocativa, o filme não chega a ser tão instigante quanto aparenta inicialmente. A proposta experimental e fragmentada traz estímulos sensoriais e questionamentos, mas o conjunto da obra não alcança a profundidade esperada para um impacto duradouro. Ainda assim, “Aquele que Viu o Abismo” se destaca como uma produção relevante para o cinema brasileiro, que dialoga com o contexto atual e desafia o espectador a confrontar a crise global sob uma perspectiva artística e original.

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