Transformações na Saúde no Rio Grande do Sul
No contexto atual, os sistemas de saúde enfrentam inúmeros desafios, como o aumento dos custos, o envelhecimento da população e a crescente demanda por serviços. Esses fatores, antes vistos como crises, agora são catalisadores para mudanças significativas. Durante o South Summit Brazil 2026, realizado em Porto Alegre, foi promovido o painel intitulado “Saúde em transição – transformando pressões do sistema em inovação e novos modelos de valor”, que trouxe à tona a urgência dessas transformações.
O evento, que reuniu representantes do setor público, da saúde suplementar e da tecnologia, proporcionou um espaço para debater como inovações e parcerias estão remodelando a organização, financiamento e escalabilidade dos cuidados em saúde. O foco do debate foi a transição de um modelo fragmentado, centrado em procedimentos, para um novo paradigma que valoriza a integração e os resultados concretos para pacientes e para o ecossistema da saúde.
A Centralidade do Paciente no Cuidado
A diretora do Departamento de Gestão da Atenção Especializada (Dgae) da Secretaria da Saúde, Lisiane Fagundes, destacou os desafios enfrentados pelo sistema de saúde do estado. Ela enfatizou que para enfrentar as crescentes pressões do setor, não basta apenas aprimorar o modelo atual, é essencial transformá-lo totalmente.
Lisiane argumentou que a crise da saúde é estrutural e não apenas conjuntural, e que as respostas devem envolver três mudanças fundamentais e interdependentes: colocar o paciente no centro do cuidado, alterar o modelo de financiamento e integrar informações como base para decisões e planejamento. “A discussão deve ir além de fazer melhor o que já existe. Precisamos mudar o modelo”, contou Lisiane durante sua fala.
Sobre a centralidade do paciente, ela ressaltou que, apesar das promessas, o sistema ainda opera de forma fragmentada, focando mais na oferta de serviços do que na jornada dos pacientes. Essa abordagem resulta em desperdício, duplicidade de processos e baixa eficiência. Defendeu um modelo baseado em valor, onde o foco se desloca do volume de procedimentos para o impacto real na vida dos pacientes. Exemplos de programas no Rio Grande do Sul, como SERMulher RS, Saúde 60+ RS e TEAcolhe, foram citados como modelos de organização do cuidado que integram diagnóstico, acompanhamento e resultados. “Quando organizo a linha de cuidado, estou cuidando da pessoa, não apenas tratando eventos”, afirmou Lisiane.
Repensando o Financiamento e a Integração das Informações
O segundo ponto abordado por Lisiane foi o modelo de financiamento, que ela considera essencial para qualquer transformação no cuidado. Atualmente, segundo a diretora, o sistema remunera a produção de serviços isolados, o que frequentemente resulta em ineficiências. Ela defendeu uma mudança nesse aspecto, sugerindo que o financiamento deve ser atrelado a critérios que priorizem acesso, qualidade e resultados assistenciais.
Lisiane apresentou o Programa Assistir como uma iniciativa que busca induzir essa mudança ao estabelecer critérios objetivos, promovendo a regionalização e uma organização mais eficiente dos serviços. “Se eu pago de forma inadequada, organizo o sistema de maneira equivocada. Não conseguimos avançar no atendimento sem uma reformulação no modelo de financiamento”, destacou.
Por fim, o terceiro eixo abordado foi a importância da informação, considerada a base para qualquer transformação no setor. A falta de interoperabilidade, segundo ela, dificulta o acompanhamento da jornada dos pacientes, a integração de dados e a geração de inteligência para decisões estratégicas, o que mantém a gestão em um padrão reativo.
Lisiane afirmou que discutir saúde digital sem integração é promover um falso avanço, ressaltando que dados não são tecnologia, mas sim ferramentas essenciais para a gestão e cuidado. “A nova era da saúde não é digital. É integrada”, concluiu, reforçando a necessidade de informações em tempo real para aprimorar a regulação e o planejamento.
Ao encerrar sua participação, Lisiane reiterou que os três pontos discutidos – centralidade no paciente, financiamento alinhado e informação integrada – devem ser vistos como um conjunto que impulsiona a transformação do sistema de saúde. “O maior erro que podemos cometer é querer resolver os problemas atuais com soluções ultrapassadas. A transformação na saúde é uma necessidade inadiável”, finalizou a diretora.
O painel também contou com a participação de Ricardo Galho, CEO da 4ALL, que atuou como moderador, e Leno Almeida, diretor da Círculo Saúde.

