A Malandragem e o Humor de Bezerra da Silva
No dia 23 de fevereiro de 1927, há 109 anos, nascia em Recife, Pernambuco, José Bezerra da Silva, um verdadeiro ícone do samba. Ao longo de sua marcante trajetória, Bezerra não apenas se destacou como cantor e compositor, mas também se tornou um multi-instrumentista reverenciado, reconhecendo as dores e os prazeres da vida nas favelas.
Bezerra da Silva, filho de uma família pobre, nasceu em um cenário de dificuldades. Sua mãe, Hercília Pereira da Silva, enfrentou sozinha a gestação após ser abandonada pelo marido, Alexandrino Bezerra da Silva. Um início desafiador, que moldou a vida artística desse sambista que transformou suas experiências em música.
Aos 15 anos, após ser expulso da Marinha Mercante, Bezerra partiu para o Rio de Janeiro, em busca do pai e de uma nova vida. Na cidade maravilhosa, trabalhou na construção civil e, por muitas vezes, residiu no local onde trabalhava, na zona central da cidade.
Em 1949, mudou-se para o Morro do Cantagalo, na Zona Sul do Rio, onde começou a desenvolver seu estilo musical, inspirado pelo ritmo do coco, em especial de Jackson do Pandeiro. Sua paixão pela música o levou a integrar a bateria do bloco carnavalesco Unidos do Cantagalo, onde aprimorou suas habilidades como ritmista.
Entretanto, a vida boêmia e as leis da malandragem o conduziram a ser preso diversas vezes. Em um período de desemprego, chegou a viver nas ruas do Rio. Foi em um terreiro de umbanda que, ao descobrir sua mediunidade, ouviu de uma mãe-de-santo que seu caminho estava nas notas musicais.
Com o nome artístico de José Bezerra, suas primeiras composições como “Acorrentado” e “Leva teu gereré”, em parceria com Jackson do Pandeiro, foram lançadas em 1959. Logo, ele se integrou à orquestra da gravadora Copacabana Discos, onde começou a compor e gravar faixas que se tornariam clássicos, como “Meu veneno” e “Urubu molhado”.
Em 1967, Bezerra lançou seu primeiro samba, “Verdadeiro amor”, também por Jackson do Pandeiro. No final da década de 1960, adotou o nome Bezerra da Silva, e em 1969, seu primeiro compacto simples foi lançado, incluindo as músicas “Mana, cadê meu boi?” e “Viola testemunha”. Em 1975, apresentou seu primeiro LP intitulado “Bezerra da Silva – O Rei do Coco Volume 1”.
O sucesso não tardou a chegar. “O Rei do Coco Volume 2”, lançado em 1976, trouxe o sucesso “Cara de boi”. Bezerra da Silva é considerado um precursor de temas que falavam da realidade das comunidades, bem antes do hip hop brasileiro. Suas letras, que abordavam desde a malandragem até as duras condições da vida nas favelas, ressoavam com o povo, sempre trazendo um toque de bom humor.
Durante sua carreira, ele lançou 28 álbuns, que somaram mais de 3 milhões de cópias vendidas. Recebeu 11 discos de ouro, três de platina e um de platina dupla. Bezerra dedicou oito anos ao estudo do violão clássico e integrou por igual período a orquestra da Rede Globo, destacando-se como um dos raros músicos que sabiam ler partituras.
Em 1995, ele lançou o projeto “Moreira da Silva, Bezerra da Silva e Dicró: Os Três Malandros In Concert”, uma paródia dos icônicos três tenores. Infelizmente, em setembro de 2004, Bezerra foi internado devido a complicações de saúde e, após vários problemas, faleceu em 17 de janeiro de 2005, aos 77 anos. Sua obra permanece viva, encantando e conscientizando através do samba.

