domingo 8 de fevereiro

A Origem dos Blocos de Rua

Em 2024, os blocos de rua do carnaval carioca celebram um marco significativo: 120 anos de história. Esse movimento cultural, que se consolidou como uma das principais expressões do Carnaval no Rio de Janeiro, tem suas raízes na eleição presidencial de 1906, quando Afonso Pena foi eleito com quase 98% dos votos. O que se destacou nessa época foi a coligação política chamada ‘O Bloco’, que rapidamente conquistou a simpatia do povo, dando origem aos primeiros blocos carnavalescos. O relato está no livro “Os blocos do carnaval carioca: o que são, o que dizem que são, o que podem ser e o que não são mais, pois já foram”, escrito pelo pesquisador Tiago Ribeiro.

A pesquisa de Tiago revela que o primeiro registro da expressão ‘bloco’ em relação ao carnaval apareceu na edição de 18 de dezembro de 1906 do Jornal do Brasil, mencionando o Bloco dos Trepadores, fundado na Zona Norte do Rio. O fenômeno logo se espalhou, e no ano seguinte, surgiram relatos do Bloco Carnavalesco São José em Recife. No Rio, os blocos começaram a multiplicar-se rapidamente, com a estreia de nomes como o Bloco dos Democráticos de Cascadura em 1908 e o Bloco Democrata de Botafogo em 1909. Esse crescimento desenfreado transformou a festa em um vasto universo de possibilidades.

A Transformação e Diversidade dos Blocos

Tiago Ribeiro observa que entre 1906 e 1910 havia apenas cinco blocos, que não se pareciam com os de hoje, mas sim com grandes sociedades. A partir da década de 1910, a diversidade de formatos se ampliou de forma exponencial. “As discussões sobre o que é ou não bloco já existiam. Naquela época, o samba ainda não se consolidara como nosso gênero musical nacional. Havia blocos com ritmos variados, como castanholas e tangos”, explica o pesquisador. Essa diversidade continua a ser uma característica fundamental dos blocos cariocas, que se adaptam às mudanças culturais ao longo do tempo.

Luiz Antonio Simas, escritor e estudioso do carnaval, destaca que o que conhecemos hoje como bloco tem múltiplas dimensões. De acordo com ele, “tem o bloco de embalo, os blocos de sujos, que estão em desuso atualmente, e até blocos de enredo que marcaram épocas”. Essa capacidade de adaptação e de incorporar novos estilos e ritmos é o que mantém a tradição viva e relevante.

A Irreverência e o Humor como Marca Registrada

A resiliência e o sucesso duradouro dos blocos de carnaval estão diretamente ligados à sua habilidade de se reinventar e de interagir com as mudanças sociais. Os blocos, por serem expressões espontâneas da cultura, se tornam verdadeiras “esponjas” da sociedade, absorvendo influências de diversas eras. Ribeiro menciona que, nos anos 1920 e 1930, blocos de concurso começaram a se aproximar dos ranchos. À medida que as décadas avançaram, no entanto, a estética dos blocos evoluiu, incorporando elementos de festas e DJs, sempre com um toque de irreverência.

Este ano, espera-se que 6,8 milhões de pessoas se unam aos 459 blocos oficialmente reconhecidos pela Riotur, uma verdadeira demonstração da força e vitalidade do carnaval de rua carioca. Entretanto, essa expansão levanta preocupações sobre a preservação da espontaneidade que caracteriza a festa. Rodrigo Rezende, coordenador da Liga do Zé Pereira, argumenta a necessidade de estruturação, como banheiros químicos e um controle adequado de trânsito, para garantir a segurança e a ordem, sem sacrificar a essência do carnaval.

Reflexões sobre o Futuro do Carnaval de Rua

O futuro dos blocos de carnaval é um tema que gera debates acalorados. O fenômeno dos megablocos, que muitas vezes se assemelham a shows ao ar livre, suscita preocupações entre puristas do carnaval. Simas reforça que os megablocos não devem eclipsar os blocos tradicionais, que são parte essencial da cultura carioca. “Não sou contra a participação de grandes artistas, mas isso não deve ocorrer em detrimento do carnaval espontâneo”, defende.

João Pimentel, autor de “Blocos”, enfatiza a importância de preservar a essência dos blocos espontâneos: “O futuro do carnaval está em pensar no presente, sem perder de vista as manifestações que surgem das ruas”. Assim, o carnaval carioca segue sua trajetória, repleto de história e inovação, refletindo as nuances de uma sociedade em constante mudança.

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