O Mangue e Suas Delícias
A célebre frase “Da lama ao caos”, que intitula o álbum de Chico Science e Nação Zumbi, é um reflexo da identidade multifacetada de Recife. Os manguezais que cercam a cidade são muito mais do que um bonito cenário: eles são a essência do trabalho, da cultura e, claro, da culinária local. O caranguejo, um dos ícones dessa rica herança gastronômica, ganha destaque na série Paladar Viaja, que explora as diversas facetas da comida recifense.
Após uma primeira parada nas delícias à beira-mar, a série agora se aprofunda no manguezal, fonte de sabores que representam o cotidiano de muitos recifenses. A jornada não para por aí: o próximo destino será o sertão, onde o bode se transforma no protagonista de pratos tradicionais, como a famosa buchada. Além disso, a cena contemporânea da culinária é explorada, com a presença de chefs de destaque e a popularidade crescente da gastronomia japonesa na cidade.
A Conexão entre o Homem e o Mangue
Antes mesmo de ser imortalizado nas letras do movimento Manguebeat, o mangue já atraía a atenção de estudiosos como o médico e geógrafo Josué de Castro. Em seu livro “Homens e Caranguejos”, lançado em 1967, ele retrata a vida de comunidades que dependem da coleta do crustáceo nos estuários recifenses. Castro pinta um retrato profundo da relação entre a população e o manguezal, descrevendo uma conexão tão forte que leva à imagem poética de “seres humanos feitos de carne de caranguejo”.
No auge dos anos 1990, o mangue ganhou nova vida através da criatividade de artistas locais. Chico Science e a Nação Zumbi usaram a lama dos manguezais como fonte de inspiração, misturando maracatu, rock e música eletrônica, projetando Recife para além de suas fronteiras e consolidando a cidade como a Manguetown.
A Vida e a Pesca no Mangue
A conexão do mangue com a gastronomia recifense se torna ainda mais clara através da história de Wedja Kely, moradora da Ilha de Deus, uma comunidade de pescadores. Em uma conversa com o Paladar, Wedja compartilha como a pesca artesanal é vital para a sobrevivência de sua comunidade. “Sou filha de pescador e de pescadeira, e também virei pescadeira. Sempre vivi da pesca aqui”, revela. Essa atividade é a espinha dorsal da economia local, com muitas mulheres saindo de casa ao amanhecer em busca dos frutos do mar.
A maré dita o ritmo da pesca, e é na maré baixa que os caranguejos aparecem em suas tocas. A coleta, no entanto, exige um olhar atento e prática, já que os pescadores devem navegar cuidadosamente pela lama para encontrar os crustáceos. Wedja explica que durante o período de defeso, quando a captura é proibida, a renda das famílias é diretamente afetada. “É um tempo difícil, mas precisamos respeitar o ciclo de reprodução do caranguejo”, enfatiza.
Sabores do Mangue na Culinária Recifense
A comida de mangue é um verdadeiro tesouro gastronômico, que vai além do caranguejo. Sururu e outros mariscos são frequentemente utilizados em pratos simples que valorizam os ingredientes. Wedja compartilha que preparar caranguejo é uma tarefa rápida: “Lava, cozinha e está pronto para servir”. O modo de comer é quase um ritual, onde o prazer está em quebrar as partes e saborear cada pedaço.
Os restaurantes de Recife, como o Reteteu e o São Pedro, sob a direção do chef Thiago das Chagas, trazem novas interpretações para esses ingredientes da tradição local. Ele destaca que a essência da cozinha pernambucana surge diretamente dos manguezais. “Recife foi construída sobre o mangue. Não se limita à música; a própria culinária é moldada por essa paisagem”, explica.
Os pratos do São Pedro incluem delícias como sururu defumado, servido com pão caseiro, e vatapá de caranguejo, uma interpretação desse clássico nordestino. O arroz de caranguejo, um dos mais pedidos, permite que os clientes quebrem as patolas e saboreiem cada pedaço, uma experiência que atrai muitos a este renomado restaurante.
Essas receitas tradicionais, que destacam a riqueza dos ingredientes dos manguezais, ajudam a contar a história de uma cidade onde o mangue é parte intrínseca da cultura e da culinária. O próximo capítulo da série Paladar Viaja levará os leitores ao sertão, onde o bode também tem seu lugar garantido em deliciosos pratos tradicionais.
Conclusão
O que se percebe, ao longo dessa jornada, é que o mangue de Recife não é apenas uma paisagem; ele é um símbolo de identidade, resistência e riqueza cultural. Os sabores trazidos pelos manguezais são uma manifestação da vida e da história da cidade, refletindo a profunda conexão que a população tem com seu ambiente natural.

