segunda-feira 8 de junho

Oceano: o maior regulador climático esquecido

Enquanto a atenção global costuma se voltar para as florestas como aliados naturais no combate à mudança climática, o oceano, que absorve cerca de 30% do dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas, frequentemente fica em segundo plano. Esse armazenamento de carbono no ambiente marinho é conhecido como carbono azul e inclui não apenas ecossistemas submersos, mas também áreas costeiras fundamentais para países como Brasil, Austrália e diversas nações insulares do Caribe e dos oceanos Pacífico e Índico.

Iniciativas e benefícios do carbono azul

Em Perth, cidade litorânea da Austrália Ocidental, o ecólogo marinho Mat Vanderklift dedica sua carreira a buscar soluções baseadas no oceano para desafios como a crise climática e a insegurança alimentar. Para ele, um dos grandes benefícios do carbono azul está em sua multifuncionalidade, que permite enfrentar simultaneamente mitigação e adaptação às mudanças climáticas, proteção da biodiversidade e segurança alimentar.

Vanderklift lidera o Centro de Carbono Azul da CSIRO (Organização de Pesquisa Científica e Industrial da Commonwealth) e o Centro de Pesquisa Marinha do Oceano Índico, reforçando a relevância científica da área para a preservação ambiental e o desenvolvimento sustentável.

Mitigação e adaptação: dois pilares essenciais

A mitigação envolve ações para impedir a liberação de gases de efeito estufa na atmosfera, como evitar o desmatamento de manguezais e restingas, além de aumentar a absorção de CO₂ por meio da restauração dos ecossistemas marinhos. A bióloga Marina Correa, especialista em conservação oceânica da WWF-Brasil, destaca que até mesmo baleias contribuem para esse processo ao movimentar as águas e favorecer a fotossíntese do plâncton, fundamental para a captura de carbono.

Já a adaptação climática reconhece os impactos já em curso, como a elevação do nível do mar. Nessa perspectiva, dar espaço para o crescimento dos manguezais, seja para cima, com sedimentos que acompanhem a elevação, ou para trás, em direção à terra, permite que esses ecossistemas se ajustem e sobrevivam mesmo diante das mudanças ambientais.

Proteção costeira e segurança alimentar

Ecossistemas como recifes de coral e manguezais também desempenham papel crucial na proteção das áreas costeiras contra eventos climáticos extremos, reduzindo a força das ondas e atuando como barreiras naturais. Além disso, milhões de pessoas dependem da pesca e da coleta de animais marinhos para subsistência e comércio, atividades que estão ameaçadas pela crise climática.

Marina Correa ressalta que a redução de impactos cumulativos, como poluição e sobrepesca, é essencial para que esses ecossistemas mantenham sua capacidade de autorregulação frente ao aquecimento e à acidificação dos oceanos. As unidades de conservação e áreas protegidas têm o objetivo de minimizar esses impactos, preservando a biodiversidade e garantindo a sobrevivência das comunidades que dela dependem.

Créditos de carbono azul e desafios econômicos

Além dos benefícios ambientais, as iniciativas de carbono azul podem ser transformadas em instrumentos de mercado por meio de créditos de carbono. Mat Vanderklift explica que esses créditos costumam ser mais caros do que os terrestres devido aos custos mais elevados dos projetos marinhos, mas oferecem um pacote de benefícios que inclui mitigação, adaptação e impacto social positivo.

O especialista ressalta que, embora a tecnologia exista em países como a Austrália, os custos ainda são proibitivos. Em outras regiões do Oceano Índico, os custos podem ser menores, mas a capacidade técnica também é limitada. Cada contexto nacional apresenta desafios e oportunidades distintas para o avanço do carbono azul.

A relação entre o oceano e o clima é, portanto, intrínseca e fundamental para estratégias globais de enfrentamento às mudanças climáticas. Proteger e valorizar os ecossistemas marinhos é prioridade para garantir a estabilidade climática e a segurança das comunidades que dependem desses ambientes.

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