A Conexão Pernambucana com o Cinema
A recente exibição de “O agente secreto” no Cinema São Luiz, um ícone da cidade, se revelou uma experiência metalinguística fascinante. Assistir ao filme no próprio cenário em que ele se desenrola é como ler “Cem anos de solidão” em Macondo, caso este lugar existisse de fato. E, para nossa sorte, Recife é real e o cinema São Luiz, surpreendentemente, ainda persiste.
Apesar de ter raízes familiares no Rio de Janeiro e em Cabo Frio, uma parte do meu ser brasileiro pertence indiscutivelmente a Pernambuco. Sou, de certa forma, um pernambucano amador.
Minha fuga para o Recife aconteceu há muitos anos, durante um período sombrio da ditadura angolana. Mais do que uma saída política, tratou-se de uma busca por refúgio emocional, marcada por um divórcio complicado que deixou meu coração em pedaços.
No Recife, encontrei acolhimento no jornalista Rossini Barreira, que gentilmente me recebeu. Posteriormente, mudei-me para Olinda, onde fui recebido por Adão Pinheiro, um artista plástico admirável, que, de certa forma, inspirou o personagem principal de um dos meus romances, “Milagrário pessoal”.
Logo percebi que Pernambuco é, de algum modo, um microcosmo do mundo — mas em escala maior. Tudo aqui é superlativo. Recife, onde os rios Capibaribe e Beberibe se entrelaçam antes de desaguarem no vasto oceano Atlântico, é lar da suposta maior avenida em linha reta do planeta e do maior shopping, ao menos nesse mesmo formato. Além disso, a região abriga os maiores baobás e, sem dúvida, alguns dos maiores talentos do cinema, com muitos deles fazendo parte do elenco do aclamado filme de Kleber Mendonça Filho. A atuação de Tânia Maria, como Dona Sebastiana, e a performance impressionante de Kaiony Venâncio, que retrata um matador profissional com uma verdadecrua, chegam a eclipsar o brilhantismo do protagonista Wagner Moura.
Um Carnaval de Emoções no Recife
Uma das cenas mais impactantes do filme é quando Vilmar, interpretado por Kaiony, foge pelas ruas do Recife após ser baleado na perna, enquanto a Banda de Pífanos de Caruaru toca “A briga do cachorro com a onça”. Essa sequência é uma verdadeira obra-prima dramática; talvez a mais memorável cena de perseguição da história do cinema.
Kleber Mendonça Filho tentou capturar a essência do Recife em seu filme, incluindo elementos tão icônicos quanto a Perna Cabeluda e até tubarões. Contudo, é uma tarefa monumental. O carnaval, por exemplo, poderia render inúmeras narrativas cinematográficas. Neste ano, embarquei, no Cais de São Pedro, em um navio repleto de piratas. O sempre jovem e incansável Alceu Valença, uma verdadeira máquina de criar alegria, nos guiou ao longo do Rio Capibaribe. Nunca havia visto o Recife sob essa perspectiva — a vibrante natureza dos mangues contrastando com as linhas elegantes da arquitetura histórica. Em seguida, seguindo os piratas Alceu e Lenine, tive a oportunidade de subir, pela primeira vez, em um trio elétrico.

