domingo 15 de março

O Longa e Sua Conexão com a História

No dia 15 de março, o filme “O Agente Secreto” competirá por quatro estatuetas no Oscar. A produção, que já acumulou diversos prêmios, desperta a curiosidade do público não apenas pela narrativa, mas também pelos cenários, que têm um significado histórico profundo.

A equipe de Opera Mundi revisitou o acervo do Departamento de Ordem Social e Política (DOPS) de Pernambuco, o terceiro maior do país, e descobriu que os locais onde o longa foi filmado foram epicentros da espionagem durante a ditadura militar (1964-1985). Durante o período do Ato Institucional nº 5 (AI-5), a vigilância de indivíduos vistos como subversivos aumentou drasticamente, refletindo o clima de repressão imposto pelo regime militar.

Os Cenários e Suas Histórias

Em “O Agente Secreto”, o personagem de Wagner Moura, Marcelo, é um professor que busca refúgio em Recife após ser perseguido por um empresário. Durante a trama, ele visita o prédio dos Correios para enviar um telegrama pedindo ajuda a um amigo em Brasília, uma tentativa de escapar de uma situação de vida ou morte.

Esse prédio, localizado na Avenida Guararapes, foi a sede de uma reunião fundamental que levou à criação do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI). A função dos Correios na época era crucial para a interceptação de correspondências, facilitando a vigilância estatal.

A reunião, realizada em setembro de 1971, reuniu representantes da Marinha, Aeronáutica, Polícia Federal e da Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco. Marcília Gama, vice-diretora do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), que investiga o DOPS há mais de 30 anos, ressaltou que, após essa primeira reunião, os encontros passaram a ocorrer em locais secretos.

Um Olhar Sobre a Tortura

O DOI-CODI foi o principal centro de tortura do regime militar, simbolizando o auge da vigilância como ferramenta de repressão contra opositores. Segundo Gama, a estruturação do serviço foi fortemente apoiada pelos Estados Unidos, que ofereceu treinamento, equipamentos e intercâmbios. Essa informação faz parte da pesquisa “Informação, Repressão e Memória – A construção do Estado de exceção do Brasil no contexto do DOPS”.

No filme, Marcelo também trabalha como datilógrafo em um Instituto de Identificação, onde busca informações sobre sua mãe. Durante esse processo, ele utiliza arquivos semelhantes aos que eram manipulados pelos agentes do DOPS. Esses prontuários continham um número de registro que permitia o acesso a informações detalhadas sobre a vida dos investigados.

Prontuários e Histórias de Vida

Marcília Gama explica que o sistema de fichário utilizado é chamado de Fichário Geral Onomástico Alfanumérico, um método que combina informações nominais e numéricas. Um exemplo impressionante é o prontuário de Gregório Bezerra, ex-deputado federal e líder das Ligas Camponesas, que possui 468 páginas repletas de detalhes da sua vida política e das opressões sofridas durante o regime.

Bezerra dedicou sua vida à luta pelos direitos trabalhistas e ficou famoso por sua resistência ao regime militar, sendo considerado o “inimigo número um” da ditadura. Após ser preso e torturado, ele foi libertado após um clamor popular e se exilou até 1979, quando retornou ao Brasil.

A Preservação da Memória

Recentemente, Jurandir Bezerra Filho, neto de Gregório, doou 600 documentos ao Memorial da Democracia de Pernambuco, buscando preservar o legado do avô. Ele enfatiza que não quer que a história de Gregório seja apenas lembrada como a de um “militante comunista”, mas sim como a de um lutador pelos direitos no Brasil.

Jurandir também relembra o medo que sentia na infância, quando ameaçado pelo DOPS. O impacto das lembranças pessoais é refletido em sua análise do filme, onde a tensão e o risco de morte se aproximam da realidade vivida por sua família durante a ditadura.

Reflexões Finais sobre o Cinema e a Memória

Para Jurandir, produções cinematográficas como “O Agente Secreto” são essenciais para recuperar a memória dos presos políticos. Ele acredita na necessidade de mais documentários e séries que abordem as histórias de resistência e sacrifício durante a ditadura militar, um chamado por mais reconhecimento das lutas de quem defendeu a democracia.

O cinema São Luiz, uma das poucas salas de rua ainda em funcionamento no Recife, também faz parte da narrativa do filme. O local foi alvo de monitoramento pela DOPS, e documentos do acervo revelam a censura rigorosa enfrentada na época, que buscava controlar até mesmo o que era exibido nas telonas.

Através do trabalho de preservação de acervos, como o do DOPS em Pernambuco, a verdadeira história dos que foram vitimados pela repressão militar pode ser contada e lembrada, evitando que as memórias deste período sombrio sejam esquecidas.

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