sexta-feira 1 de maio

Revendo Raízes e Repertório Inédito

Em uma memorável noite de 1982, Chico César, na época um jovem paraibano de apenas 18 anos, apresentou suas primeiras canções na modesta sala Hermínio Bello de Carvalho, localizada na Casa da Cultura de Pernambuco, no Recife. Naquele momento, o cantor ainda era um nome desconhecido, distante do grande sucesso que viria a conquistar com faixas como “À Primeira Vista” e “Mama África”. As músicas, que encantaram uma plateia pequena, nunca mais foram ouvidas ao vivo — até agora.

Agora, essas composições ganham a visibilidade que merecem no espetáculo programado para o Teatro do Parque, neste sábado, às 20h. Esse show marca o início da turnê do álbum “Fofo”, que já está disponível no YouTube. O evento promete proporcionar ao público uma experiência nostálgica e íntima, com ingressos variando entre R$ 110 (meia) e R$ 220 (inteira) na plataforma Sympla.

Memórias de um Início Brilhante

Entre os poucos privilegiados que assistiram a aquela apresentação inicial há 44 anos, estava um jovem Lenine, que, segundo Chico, o viu tocar pela primeira vez naquele mesmo local. ‘Foi ali que tudo começou’, recorda o artista, que hoje, aos 62 anos, reflete sobre sua jornada musical. Na época, Lenine estava prestes a lançar seu álbum de estreia, “Baque Solto” (1983), resultado de uma colaboração com Lula Queiroga.

Aquela apresentação foi crucial para a formação de laços entre os dois artistas, que culminariam anos depois na produção de “Aos Vivos” (1995), o disco que projetou Chico César no cenário musical brasileiro. Curiosamente, o lançamento desse álbum também ocorreu no Teatro do Parque, um local que Chico considera emblemático. “Foi onde me senti artista pela primeira vez”, celebra.

Uma Turnê com Sentido

Diante da importância da capital pernambucana em sua carreira, a escolha de Chico César para iniciar a turnê de “Fofo” em Recife não é à toa. ‘Essa é uma plateia apaixonada, que não hesita em expressar seu amor e emoção’, caracteriza o cantor. Para essa nova fase, ele optou pelo formato minimalista de voz e violão, proporcionando um resgate musical que é tanto profundo quanto pessoal.

“Minha essência está presente em cada nota. Este álbum diz muito sobre quem sou e sobre o que ainda posso me tornar”, afirma Chico. Após o show no Recife, ele pretende levar o projeto por várias cidades do Brasil e também na Argentina, antes de retornar a Pernambuco para se apresentar no tradicional São João de Caruaru, no dia 20 de junho.

Um Retorno ao Passado e Reflexões no Presente

Embora o repertório inclua novas criações, como “Ligue o Foda-se”, o foco do espetáculo está voltado para a produção juvenil de Chico César, que abrange seus anos de 17 a 20. “Quero explorar a coerência entre o artista jovem e o que sou hoje”, explica. O repertório revisita a época em que o cantor, recém-chegado a João Pessoa, se envolveu com o experimentalismo do coletivo Jaguaribe Carne.

Este grupo foi fundamental na fusão de raízes nordestinas com influências de culturas indianas e paquistanesas, moldando a poética que permanece presente ao longo de sua carreira. “Pedro Osmar, um dos fundadores do coletivo, diz que sou o braço pop do grupo. Essa é uma visão generosa”, reflete o artista, que compartilha os versos da música “9 linhas 22 toques corpo à escolha do diagramador” com Osmar.

Uma Carreira em Constante Evolução

Ao se mudar para São Paulo em 1985, Chico César sentiu a necessidade de reafirmar suas raízes. Suas composições iniciais abriram caminho para uma mensagem de resistência negra e nordestina, que culminou no icônico “Aos Vivos”. “Agradeço às canções por terem esperado o momento certo para serem ouvidas. Se eu as tivesse gravado mais cedo, poderia ter limitado minha trajetória e, possivelmente, minha carreira seria mais curta”, analisa.

“Fofo” funciona como um mapa das influências que moldaram a trajetória de Chico. Enquanto “Saudade Senhora Dona” evoca a tradição dos aboios e galopes, com sonoridades que trazem à mente a aridez nordestina, “Lençóis Maranhenses” é uma balada lírica que flui em afeto. Na letra, ele descreve uma viagem pela “movediça areia do amor nonsense”, convidando o público a refletir sobre os matizes da vida e do amor.

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