sábado 14 de março

Uma Tradição que Se Fortalece

O Circo de Tradição Familiar foi oficialmente reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil nesta semana, após deliberação do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Essa vitória será registrada no Livro de Registro das Formas de Expressão, refletindo a importância dessa manifestação cultural em nosso país.

De acordo com o Iphan, o circo tradicional é uma expressão cultural itinerante que se organiza em núcleos familiares, transmitindo saberes, técnicas e modos de vida entre gerações. O reconhecimento é um marco significativo, não apenas pela força dos espetáculos promovidos, mas também pelas práticas lúdicas e pela memória social que preserva.

A decisão foi tomada durante uma reunião no Palácio Gustavo Capanema, no centro do Rio de Janeiro, na última quarta-feira (11). Essa conquista é vista como resultado da luta incansável das famílias que mantêm viva essa tradição, sendo o Circo de Tradição Familiar Zanchettini, fundado em 1991 no Paraná, um dos principais pilares nesse processo.

O circo foi idealizado por Wanda Cabral Zanchettin e Primo Júlio Zanchettin. Ao longo das décadas, a companhia se manteve através dos dez filhos e filhas do casal, que continuam a tradição. Em 1993, Wanda iniciou a luta pelo reconhecimento da categoria, um sonho que se concretizou mais de 30 anos depois.

O pedido oficial para o registro foi feito por ela ao Iphan em 2005, mobilizando diversas famílias circenses, associações, pesquisadores e instituições públicas. Infelizmente, a decisão desta semana aconteceu após a morte de Wanda, em 2017.

Em entrevista à Agência Brasil, Edlamar Maria Cabral Zanchettin, de 68 anos, filha de Wanda e uma das guardiãs da tradição familiar, enfatizou a importância do protagonismo da família nesse reconhecimento. “Foi a nossa família quem protocolou, quem trabalhou, foi a Brasília, fez reunião. Tudo fomos nós, mas fizemos na abrangência de todos os circos brasileiros. Nossa maior luta é pelo reconhecimento dos nossos antepassados”, relatou emocionada. Edlamar também celebrou a conquista, comparando-a a um Oscar para o circo brasileiro: “É para todos nós”.

Edlamar lamentou a ausência da mãe nesse momento de celebração. “Ela lutou muito por isso, mas não chegou a testemunhar esta vitória. Foi a pessoa que nos guiou e nos deu força para chegarmos até aqui, e agradecemos a Deus por esse reconhecimento”, disse.

A Origem da Tradição

A história do Circo Zanchettini remonta a 1949, quando Wanda, com apenas 18 anos, começou sua trajetória no circo de ciganos Irmãos Marques, acompanhado de sua mãe e irmãos. Foi ali que ela conheceu o italiano Primo Júlio, com quem se casou e, ao lado da família, fundou o Circo Teatro Gávea.

Apesar de suas limitações, o circo foi um espaço de aprendizado. “A mãe passava as técnicas para nós. Ela sabia tudo sobre circo e artes”, relembra Erimeide Maria, de 65 anos, que cresceu imersa nessa cultura. Em 1991, após a morte de seu esposo, Wanda decidiu homenageá-lo e renomeou a companhia como Zanchettini.

“Meu pai sempre esteve ao lado dela em sua trajetória, como artista e palhaço. Somos dez filhos que cresceram nas barracas ao redor do circo”, compartilhou Erimeide, que se destacou como trapezista, cantora e acrobata. Apesar das dificuldades, a convivência familiar sempre foi marcada por alegria e união.

Desafios Contemporâneos

O circo familiar enfrenta uma série de desafios, especialmente a concorrência com espetáculos de celebridades e shows gratuitos. “Esses eventos não representam o circo tradicional brasileiro, com palhaços de cara pintada e as artes clássicas”, destacou Edlamar. Outro ponto crítico são as dificuldades financeiras, decorrentes de impostos e taxas cobradas pelo governo. “Nos tratam como se fôssemos grandes empresas, mas somos artistas da cultura”, lamentou.

Os problemas são comuns entre circos familiares em todo o Brasil, e Edlamar ressaltou que circos menores enfrentam situações ainda mais complicadas. “Já passamos por diversas crises, mas a paixão pelo circo nos mantém unidos”, afirmou Erimeide, ressaltando o amor profundo que nutrem pela arte circense.

A expectativa de Edlamar é que o novo status como Patrimônio Cultural facilite a busca por apoios e recursos. “Esse reconhecimento pode abrir portas e trazer benefícios, como terrenos da prefeitura ou preços mais acessíveis”, concluiu.

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