Desafios do Agronegócio Diante da Crise Climática
A insuficiente cobertura de seguros agronegócios em face da crescente incidência de eventos climáticos extremos torna o setor mais vulnerável a danos. Dyogo Oliveira, presidente da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), destaca: “Há um grande gap de proteção. A falta de seguros contrasta com a aceleração dos fenômenos climáticos.”
As agências de classificação de risco reconhecem que o seguro rural é considerado caro, pouco disseminado e inadequado para enfrentar o avanço de crises climáticas, o que compromete a resiliência do sistema produtivo. A Fitch Ratings aponta que o custo do seguro tornou-se proibitivo para muitos agricultores, uma preocupação expressa pelo diretor sênior Renato Donatti. Segundo ele, a alta taxa de juros, somada a spreads amplos e prêmios elevados, inviabiliza a cobertura de toda a área agrícola. “Com juros de 15% e um prêmio de seguro alto, a situação se torna inviável. A rentabilidade não suporta esses custos”, explica.
“No Brasil, ainda não existem seguros de risco climático em larga escala para a agricultura, ao contrário de outros países”, afirma Julyana Yokota, diretora-geral da S&P. Embora eventos climáticos tenham se intensificado no Brasil, a frequência não se compara à observada em locais como Austrália e Califórnia, onde secas e inundações ocorrem com regularidade. Isso leva a uma priorização de outros fatores em relação ao risco climático.
Impactos Financeiros e Desafios para Produtores
Atualmente, muitos dos prejuízos causados por ondas de calor, secas e suas consequências são absorvidos diretamente pelos agricultores, além de afetar empresas da cadeia produtiva e instituições financeiras que financiam a atividade agrícola. Jennifer Chang, vice-presidente sênior de Crédito da Moody’s, alerta que os riscos climáticos físicos podem gerar consequências significativas para o sistema financeiro. “As seguradoras estão limitando sua exposição ao risco, se afastando de regiões vulneráveis, o que resulta em elevação dos prêmios ou restrições nas coberturas. Esse fenômeno acaba transferindo o risco para os comerciantes locais e até para o Estado”, acrescenta.
Oliveira também comenta que, em casos de perdas devido à seca ou enchentes, a solução geralmente envolve a renegociação de dívidas. “O produtor refinancia suas obrigações, fica sem crédito e, no ano seguinte, precisa contrair novos empréstimos para continuar sua produção, o que acaba gerando um acúmulo de dívidas”, ressalta. Essa situação resulta em um ônus ao governo, que, ao assumir a diferença de juros, agrava a situação financeira dos produtores.
O Seguro como Mecanismo de Proteção
O seguro poderia atuar como uma rede de proteção. “Um déficit na produção pode ser o primeiro reflexo a aparecer nas seguradoras, uma vez que a indenização é acionada para cobrir o financiamento”, observa Linda Murasawa, conselheira do Fórum de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Ela destaca que, apesar de nem todos os bancos registrarem as perdas imediatamente, as seguradoras são as que mais sentem o impacto.
André Messa, analista sênior da Austin Ratings, salienta que o Brasil ainda está em seus primeiros passos no desenvolvimento de seguros paramétricos e de crédito climático, instrumentos essenciais para reforçar a resiliência do setor agrícola. “A indústria de seguros precisa avançar para mitigar os riscos associados aos créditos agrícolas”, destaca.
Hazem Krichene, economista sênior de clima da Allianz Trade, aponta que a exacerbação de eventos extremos está mudando o perfil das coberturas. “Construções em áreas de risco, como próximas a rios ou zonas costeiras, precisam de atenção. Sem investimentos em adaptação, algumas regiões poderão enfrentar impactos climáticos ainda mais severos”, adverte.
Análise de Risco e Concessão de Créditos
O processo de avaliação de risco é complexo e abrange variáveis que vão além dos riscos setoriais. Donatti explica que tanto bancos quanto o mercado de capitais já estão considerando os riscos climáticos na precificação de suas dívidas. A Fitch Ratings, por exemplo, considera o risco setorial um dos principais critérios de análise.
De acordo com a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), a exposição das carteiras de crédito aos impactos climáticos tem diminuído nos últimos anos. Amaury Oliva, diretor de Sustentabilidade da entidade, relata que a participação de empréstimos relacionados à crise climática caiu de 61% para 51% entre 2012 e 2024. “Os bancos têm direcionado suas carteiras para evitar setores mais vulneráveis e dependentes de recursos naturais impactados pelo clima”, afirma.
A evolução na mensuração dos riscos ambientais tem sido crucial para a concessão de financiamentos. A Régua Multissetorial de Sensibilidade ao Risco Climático, criada pela Febraban, permite às instituições financeiras avaliar a exposição a mudanças climáticas em diversos setores. Oliva explica que essa ferramenta ajuda os bancos a entender quão expostas estão suas carteiras de crédito ao risco climático.
Integração dos Riscos Climáticos nos Modelos Financeiros
José Ricardo Sasseron, vice-presidente de Negócios, Governo e Sustentabilidade do Banco do Brasil, ressalta que integrar riscos climáticos nas análises financeiras é um desafio contemporâneo. “Diante de um cenário global de eventos climáticos extremos e a transição para uma economia de baixo carbono, é vital adotar metodologias robustas para assegurar a resiliência do setor”, avalia.
Segundo ele, o Banco do Brasil utiliza essas projeções em testes de estresse e análises para avaliar os impactos nas carteiras de crédito rural e empresarial. Sasseron menciona simulações que envolvem fenômenos como o Super El Niño e La Niña, cujos resultados demonstram a capacidade de absorção das instituições financeiras diante dos impactos climáticos.
Com uma mensuração precisa, o custo do financiamento pode ser reduzido, como destaca Murasawa. “Ferramentas que medem o estresse térmico possibilitam uma precificação mais detalhada do risco. Quando um projeto considera e mitiga esses riscos, a taxa de juros pode ser diminuída. Em contrapartida, a falta de gestão de riscos resulta em custos mais altos”, conclui.

