segunda-feira 27 de abril

Casos de Ausência Paterna Aumentam em Mato Grosso

Nos últimos cinco anos, Mato Grosso registrou um aumento alarmante no número de crianças que nasceram sem o nome do pai. De acordo com dados da Associação dos Notários e Registradores do Estado (Anoreg/MT), mais de 25,9 mil crianças foram registradas apenas com o nome da mãe, representando um crescimento de 40,4%, saltando de 3.311 casos em 2020 para 4.651 em 2025. Esses números consolidam a ausência paterna como uma realidade persistente no estado. Em 2025, o pico da série histórica foi atingido, com cerca de 13 crianças sendo registradas diariamente apenas com o nome da mãe. Esse volume corresponde a 7,53% de todos os nascimentos ocorridos no período, totalizando 25.923 registros sem o reconhecimento paterno em um total de 344.334 nascimentos.

A capital Cuiabá, por sua vez, está enfrentando uma evolução ainda mais acentuada neste cenário. Nos últimos cinco anos, a cidade acumulou 5.603 registros, apresentando um aumento impressionante de 90,3%, ao passar de 600 casos em 2020 para 1.142 em 2025. Essa média representa cerca de três crianças registradas por dia sem o nome do pai, indicando que a problemática é mais concentrada em áreas urbanas. Entretanto, por trás desses números, há histórias emocionantes e difíceis que começam com a marca da ausência.

Histórias de Mães Sem o Apoio Paterno

Um exemplo é o relato de Ana Paula Santos, 27 anos, residente em Cuiabá, mãe do pequeno Davi, de apenas 2 anos, cujo registro foi feito somente com o nome dela em 2024. Durante a gestação, o pai da criança se afastou e não participou de nenhum momento do pré-natal. “Quando descobri que estava grávida, ele disse que ia assumir, mas depois desapareceu. Não ajudou em nada, nem durante a gravidez, nem depois que o Davi nasceu”, compartilha Ana Paula.

Com a falta de reconhecimento paterno, Ana Paula teve que lidar sozinha com todas as despesas, que incluíam desde o enxoval do bebê até consultas médicas e alimentação. Hoje, ela se desdobra entre o trabalho informal e os cuidados com o filho. “Tudo é por minha conta. Escola, médico, comida, roupa. A gente se vira porque precisa, mas não é fácil”, revela.

Histórias semelhantes se repetem em várias regiões do estado. Em Várzea Grande, por exemplo, Juliana Ferreira, de 31 anos, enfrenta uma situação análoga. Mãe de Maria Eduarda, de 1 ano, ela registrou a filha sem o nome do pai após o rompimento ainda durante a gestação. “Ele esteve presente no início, mas depois que nos separamos, desapareceu. Quando fui registrar a Maria, já sabia que seria só no meu nome”, conta Juliana.

Mesmo após várias tentativas de contato para o reconhecimento, Juliana não obteve respostas. “A gente cansa de insistir. Agora procurei a Justiça e vamos aguardar”, relata.

A Luta pelo Reconhecimento Paterno

A história de Thaylla Amaral Silva, de 33 anos, também reflete a luta pelo reconhecimento paterno. Mãe de Anna Beatriz, de 14 anos, Thaylla enfrentou um longo processo até conseguir que o pai da menina a reconhecesse, o que só ocorreu após oito anos de espera. Quando Anna nasceu, Thaylla tinha apenas 18 anos e, mesmo sabendo a identidade do pai, ele se negou a registrá-la. “Tentei através da Defensoria Pública, mas o caso ficou parado por anos. Não era apenas um nome em um papel, mas uma questão de identidade e dignidade”, desabafa Thaylla.

O reconhecimento da paternidade finalmente aconteceu em 2019, após a busca por um advogado particular e a realização de um exame de DNA. “Demorou, foi cansativo, mas valeu a pena. É um direito da criança”, afirma, ressaltando a importância desse reconhecimento para a formação da identidade da filha.

Essas histórias são apenas algumas entre muitas que refletem a dura realidade de mães que enfrentam a ausência do pai na vida de seus filhos em Mato Grosso. O crescente número de registros sem o nome do pai ressalta a necessidade de abordagens mais eficazes para lidar com a questão da paternidade e suas implicações sociais no estado.

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