Mercado Imobiliário em Ascensão no Recife
A capital pernambucana se destaca atualmente por apresentar um fenômeno raro no cenário imobiliário brasileiro: a redução no custo de construção, enquanto a demanda por imóveis continua a crescer. A análise realizada pela Trinus, plataforma que fornece dados e soluções financeiras para o setor, revela que o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-M), divulgado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostra uma leve desaceleração no aumento dos custos de construção.
Em janeiro, os custos apresentaram uma alta de 0,63%, enquanto em fevereiro houve uma elevação menor, de 0,34%. Quando comparado com o acumulado do último ano, o índice também ficou em 5,83%, inferior aos 7,18% do mesmo período do ano passado. Apesar de parecer uma boa notícia para o setor, especialistas alertam que é preciso cautela ao analisar esses dados.
Ariany Arruda, Head de Engenharia da Trinus, destaca que “é preciso estar atento, pois o número consolidado do INCC-M esconde variações significativas por componente e por fase de obra”. Para exemplificar, ela menciona que, em janeiro, os materiais para instalação passaram de uma queda de 0,22% para um aumento de 1,03%, evidenciando uma oscilação de 1,25 ponto percentual que poderia passar despercebida se analisada apenas o índice geral.
Essas oscilações significativas podem representar, para quem está planejando ou executando uma obra, um aumento de custos inesperado. Além disso, a mão de obra especializada também continua a pressionar o setor, com profissionais como armadores (+1,29%), encanadores (+1,20%), pedreiros (+0,93%) e eletricistas (+0,92%) registrando altas acima da média do índice.
Recife com Controle nos Custos
Embora o índice nacional indique pressões sobre os custos de construção, o Recife manteve um comportamento mais equilibrado durante 2025. Em meses críticos como outubro e dezembro, a cidade se destacou entre as poucas capitais a registrar uma desaceleração nos custos, mesmo enquanto outras regiões enfrentaram aumentos.
Ariany Arruda complementa afirmando que “esse controle nos custos em Recife não é por acaso, mas sim reflexo de uma cadeia produtiva local capaz de atender à crescente demanda sem acionar os gargalos que afetam outros mercados, como São Paulo, onde o acumulado dos últimos 12 meses chega a 7,01%”. Para as incorporadoras que atuam em múltiplas regiões, Recife hoje oferece uma margem operacional mais protegida.
Os números do setor confirmam essa tendência. Em 2025, o Valor Geral de Vendas (VGV) da Região Metropolitana do Recife alcançou a marca de R$ 10,1 bilhões, um aumento de 53% em relação a 2024, com a venda de 12.061 unidades. O volume comercializado quase duplicou em relação ao total lançado, reduzindo o estoque para apenas seis meses, a menor taxa registrada na região.
Segmentação do Mercado e Oportunidades Futuras
A dinâmica do mercado revela uma forte polarização entre os diferentes segmentos: o programa Minha Casa Minha Vida teve um crescimento de 40%, representando agora mais da metade das transações, enquanto o segmento de alto padrão explodiu em 647%, aumentando sua participação de 2,3% para 17,2% do total. Bairros como Imbiribeira e Vasco da Gama se destacaram, concentrando a maioria dos lançamentos recentes e indicando uma expansão para novas fronteiras urbanas.
Silvia de Castro, executiva regional da Trinus, afirma que “Recife vive uma combinação incomum, com uma demanda estruturalmente maior que a oferta, estoque em níveis mínimos históricos e valorização patrimonial em alta”. Ela destaca que o mercado de luxo da cidade já ocupa a terceira posição nacional em demanda, atrás apenas de São Paulo e Goiânia. Para quem souber aproveitar esse cenário, com o produto adequado e nos locais certos, as oportunidades são promissoras.
A combinação de custos controlados, uma demanda robusta e um estoque histórico mínimo abre uma janela de oportunidades para novos lançamentos em 2026, segundo a análise da Trinus. No entanto, um alerta se faz necessário: 87,7% das unidades disponíveis foram lançadas entre 2023 e 2025, sugerindo que o mercado poderá enfrentar um novo desequilíbrio entre oferta e demanda se não for adequadamente gerido.
“O principal risco no Recife atualmente não é o INCC, mas sim a rapidez com que o setor consegue responder. O mercado está absorvendo produtos mais rapidamente do que está lançando novos. Incorporadoras que conseguirem viabilizar novos empreendimentos em 2026, especialmente nos segmentos populares e de alto padrão, encontrarão uma demanda reprimida significativa. A janela está aberta, mas não é infinita. Aqueles com planejamento estratégico e boa governança para adquirir crédito de qualidade sairão à frente”, conclui Silvia de Castro.

