domingo 25 de janeiro

Uma Celebração das Influências Africanas

No último sábado, 24 de janeiro, comemorou-se o Dia Mundial da Cultura Africana e Afrodescente, uma data marcada pela UNESCO desde 2019. Este dia especial destaca as ricas contribuições das culturas de origem africana, que são diversas e multifacetadas. Entre os séculos XVI e XIX, milhões de africanos, incluindo grupos bantos, iorubás, jejes e haussás, foram trazidos ao Brasil, especialmente para o Nordeste, formando um legado cultural inestimável.

Em virtude dessa data, é fundamental refletir sobre as influências africanas em nossa cultura e como elas se manifestam na sociedade contemporânea. Para explorar esses aspectos, a reportagem da CBN Recife conversou com a historiadora Cibele Barbosa, da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), e com o professor de Literaturas Africanas Rogério Andrade, autor do livro “Como surgiu o primeiro Griot”.

A Diversidade Cultural Africana

Durante a entrevista, Cibele Barbosa explicou: “Não existe uma única cultura africana. O continente abriga uma variedade de culturas que chegaram ao Brasil através de diferentes grupos de pessoas na diáspora. Falar da cultura brasileira sem considerar a africana é impossível, especialmente em Pernambuco, onde muitos desses povos se estabeleceram. Aqui, essas culturas foram ressignificadas e reinventadas, resultando no que chamamos de cultura afro-brasileira. Esse mosaico cultural é fruto das interações entre africanos, indígenas e europeus. Assim, a religiosidade desempenha um papel fundamental, manifestando-se em tradições como o candomblé e a umbanda, que são fusões com elementos indígenas.”

Continuando a conversa, Lucas Arruda, da CBN Recife, questionou sobre outras manifestações culturais que são influenciadas pela cultura africana. Cibele destacou que o carnaval brasileiro, por exemplo, deve muito às populações africanas. “A musicalidade que permeia nosso carnaval remonta à herança africana, especialmente no frevo, que apresenta raízes na capoeira, uma dança igualmente influenciada pelas culturas africanas, como a de Angola. O carnaval é, portanto, resultado direto dessas influências, refletindo danças e ritmos que foram amalgamados ao longo do tempo”, enfatizou Barbosa.

A Importância da Oralidade na Cultura Africana

Na sequência, Lucas trouxe à tona a figura do griô, um personagem central na tradição oral africana. Rogério Andrade explicou que muitos errôneamente veem o griô apenas como um contador de histórias. “Na verdade, o griô é um genealogista, um mestre de cerimônia e um detentor da memória ancestral. Antigamente, reis possuíam seus griôs, que recitavam genealogias complexas, celebrando a história de grandes linhagens. Para ser um griô, é preciso pertencer a uma família de griôs, e a aprendizagem ocorre desde a infância. Eles percorrem cidades, apresentando-se e absorvendo histórias e saberes”, detalhou Andrade.

Quando questionado sobre como as tradições africanas se perpetuam no Brasil, Rogério enfatizou a oralidade como elemento essencial. “A cultura africana é intrinsecamente oral. Histórias, provérbios e conhecimentos são transmitidos de geração a geração, criando laços comunitários. Ao anoitecer, o ato de contar histórias se torna um momento de união nas aldeias. Autores africanos de língua portuguesa, como Mia Couto e Pepetela, são um exemplo da riqueza dessa tradição literária que continua a impactar a literatura brasileira”, concluiu Andrade.

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