O Resgate Cultural do Povo Pankará
A cultura pernambucana é amplamente reconhecida por sua riqueza e diversidade, mas ainda existem aspectos significativos que merecem atenção, especialmente no que tange às tradições indígenas. Desde o século 16, muitos elementos da cultura dos povos nativos foram sistematicamente apagados, deixando lacunas importantes na identidade cultural do estado. Uma dessas lacunas está sendo abordada pelo Inventário Participativo do Sistema Alimentar e Culinário do Povo Pankará, localizado em Carnaubeira da Penha, no Sertão do São Francisco. Este projeto, apoiado pela Fundarpe por meio do Funcultura, tem como objetivo documentar e resgatar toda a cadeia cultural desse povo, abrangendo desde o cultivo dos alimentos até a sua preparação e consumo.
A proposta foi aprovada no edital Funcultura Geral 2023/2024, na categoria “Patrimônio Cultural”, pela produtora Gato de Gengibre, sob a coordenação da pesquisadora Monica Larangeira Jácome. Com início em 2025 e a possibilidade de prorrogação até 2027, o projeto poderá ser avaliado pelo Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural, podendo receber o título de Patrimônio Cultural Imaterial de Pernambuco. A Fundarpe já emitiu parecer preliminar que atesta a relevância do registro dessa cultura alimentar, o que aumenta as chances de reconhecimento.
Etapas do Inventário e Produção Cultural
“O inventário não se limita apenas às receitas do povo Pankará. Ele é estruturado em cinco etapas distintas: a produção de alimentos; o registro das receitas e da memória gustativa; o artesanato relacionado à alimentação, que inclui utensílios feitos de barro e fibras naturais; os locais de preparação dos alimentos, como casas de farinha e hortas; e as celebrações que envolvem a comida”, explica Monica Jácome. Além disso, o Funcultura demandou a criação de produtos culturais, como um documentário curta-metragem e o cadastro dos mestres e mestras ligados à cultura alimentar Pankará.
A alimentação, como parte intrínseca da cultura, abrange memórias e interações sociais. Os hábitos alimentares refletem o que pode ser consumido, as práticas de cultivo e o modo de preparo de alimentos em diferentes localidades. Esses saberes são passados de geração para geração e podem apresentar adaptações ao longo do tempo. Um exemplo notável é a mandioca, um alimento nativo da América do Sul que se tornou central na dieta não apenas dos povos indígenas, mas também das populações que chegaram ao continente durante a colonização.
A Importância do Sistema Alimentar Pankará
Reconhecer a relevância do sistema alimentar e culinário Pankará ajuda a preservar a diversidade cultural em Pernambuco. “A memória social é seletiva. Quando se fala em patrimônio alimentar, normalmente se destaca apenas as iguarias associadas à elite, como o bolo de rolo. Contudo, a verdadeira história de Pernambuco é fragmentada. Como podemos discutir bens culturais se isso se restringe a um grupo social dominante?”, questiona a pesquisadora. O trabalho do inventário beneficia não apenas os Pankará, mas enriquece toda a narrativa cultural do estado.
O Inventário Participativo do Sistema Alimentar e Culinário do Povo Pankará é um esforço coletivo que envolve a comunidade. Composto por cinco bolsistas e uma produtora, o projeto garante a participação ativa da comunidade em todas as etapas do processo. “Desenvolvemos oficinas para criar um protocolo de consulta que regula as interações entre os Pankará e os não indígenas envolvidos. Após cada fase, realizamos prestações de contas para discutir os próximos passos”, complementa Jácome. Os bolsistas também participarão de uma oficina de audiovisual para elaborar o roteiro do curta-metragem que será associado à pesquisa.
Tradição e Resistência na Voz do Povo Pankará
A cacica Dorinha, liderança do povo Pankará, expressa a importância do projeto: “O inventário nos fortalece dentro de nossas tradições. O respeito e a valorização do que herdamos de nossos antepassados são essenciais. Para nós, isso não é apenas um inventário de alimentos, mas um registro de saberes, tradições e resistência”. Segundo Dorinha, o projeto aborda como cultivar, coletar e preparar os alimentos, preservando assim os modos de vida ensinados pelos mais velhos, e garantindo que esses conhecimentos sejam transmitidos às novas gerações.
Heranças Gastronômicas e Culturas em Pernambuco
O complexo sistema alimentar Pankará é abrangente e impacta também a população não indígena. Monica Jácome menciona, por exemplo, o uso do coco catolé, que se tornou um petisco popular entre os não indígenas. A lista de alimentos e ingredientes que fazem parte da cultura Pankará é extensa, incluindo mandioca, milho, feijão andu, e várias frutas, além de carnes de caça e criações. As tradições alimentares se entrelaçam com as expressões culturais, como a dança do toré e as festividades que promovem a cultura Pankará, contribuindo para a continuidade de suas práticas e o fortalecimento de sua identidade.
As influências indígenas em Pernambuco vão além da culinária. Manifestações culturais como o caboclinho, maracatu rural, e ciranda também carregam essa herança. O Governo do Estado, por meio da Fundarpe, tem reconhecido a importância dessas tradições, conferindo títulos de Patrimônio Vivo e promovendo editais que abrangem diversas linguagens artísticas. Atualmente, as inscrições para os editais do Funcultura seguem abertas, oferecendo suporte a iniciativas que promovem a cultura pernambucana em suas diversas formas.

