Desigualdade no Acesso à educação infantil
Embora a pré-escola seja obrigatória no Brasil há mais de uma década, ainda existe uma significativa lacuna no acesso a esse nível educacional. Um novo estudo do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede) revela que, atualmente, 876 municípios brasileiros não conseguem atender a 90% de sua demanda, deixando aproximadamente 329 mil crianças fora da pré-escola.
A análise, realizada em parceria com a Fundação Bracell, a Fundação Itaú, a Fundação VélezReyes+, a Fundação Van Leer e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), lança luz sobre a situação crítica da educação infantil no país. O indicador desenvolvido pelo Iede avalia a cobertura de atendimento à educação infantil em níveis municipais, com dados atualizados anualmente.
Este cálculo é feito a partir da comparação entre as matrículas registradas no Censo Escolar e as projeções populacionais do IBGE, permitindo mensurar a cobertura efetiva em cada localidade. Os dados apontam que, enquanto algumas regiões, como o Sul e o Sudeste, apresentam índices mais elevados, o Norte e partes do Nordeste evidenciam uma realidade alarmante.
Regiões com Baixo Atendimento à Pré-Escola
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Na região Norte, por exemplo, 29% dos municípios não atingem a meta de 90% de atendimento, um índice que é quase três vezes maior do que o observado no Sul, onde apenas 11% das cidades estão na mesma situação. O Nordeste, por sua vez, é a região que concentra o maior número de municípios abaixo dessa faixa, com 104 localidades, correspondendo a 17% do total.
Esses números não se restringem a cidades pequenas ou remotas; as capitais também apresentam variações consideráveis. Algumas delas alcançam 100% de matrículas na pré-escola, enquanto outras ainda lutam para atingir a marca de 80%, o que evidencia a persistência das desigualdades mesmo em grandes centros urbanos.
Desigualdades Regionais no Atendimento Educacional
O cenário se agrava quando analisamos as capitais da região Norte e Nordeste, onde o percentual de crianças de 4 e 5 anos fora da escola permanece alarmante. O levantamento fornece dados detalhados sobre a cobertura em diversas capitais, mostrando que, enquanto algumas alcançam índices de 100% de atendimento, outras têm números muito abaixo, como Maceió (AL), com apenas 64,8%.
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Além da região, fatores como a localidade de moradia também influenciam o acesso à educação infantil. As crianças que residem em áreas rurais enfrentam mais dificuldades para frequentar a pré-escola em comparação com aquelas que vivem em zonas urbanas. A pesquisa revela que cerca de 2,3 milhões de crianças de até 3 anos estavam fora das creches em 2024, devido a problemas de acesso, como a falta de vagas ou de instituições próximas.
Desafios para a Educação Infantil
A faixa etária de 0 a 3 anos é considerada o maior desafio para a educação infantil no Brasil. Dados do novo indicador mostram que 81% dos municípios apresentam taxas de atendimento inferiores a 60%, um patamar que é considerado meta pelo novo Plano Nacional de Educação (PNE) para o período de 2026 a 2036.
Na região Norte, essa situação é ainda mais crítica, com 94% dos municípios registrando cobertura abaixo de 60% para a faixa etária de 0 a 3 anos. Apesar da pré-escola ser uma etapa obrigatória, a creche, que é opcional, continua apresentando índices preocupantes de atendimento.
Problemas na Infraestrutura das Escolas Infantis
Além do desafio do acesso, a qualidade da educação infantil também é uma preocupação significativa. Apenas 17% das escolas públicas de educação infantil no Brasil possuem a infraestrutura básica adequada. Muitas instituições enfrentam problemas como a falta de rede de esgoto, coleta regular de lixo e abastecimento de água, comprometendo o ambiente de aprendizado para as crianças.
A infraestrutura pedagógica é igualmente deficiente. A maioria das escolas não oferece bibliotecas ou salas de leitura, e apenas 45% contam com parques infantis, espaços essenciais para o desenvolvimento físico e emocional das crianças. Esses dados ressaltam a necessidade de garantir não apenas o acesso, mas também a qualidade do ensino desde os primeiros anos de vida, a fim de evitar a perpetuação das desigualdades educacionais.

