Desistência de Janja: Um Alívio Estratégico para o Governo
A decisão da primeira-dama, Janja Lula da Silva, de não participar do desfile da escola de samba que homenageou o presidente Lula foi recebida com alívio por seus aliados mais próximos. A expectativa de um desgaste político após a apresentação no Rio de Janeiro gerava apreensão entre aqueles que compõem o núcleo do petismo.
Na visão desse grupo, a presença de Janja no evento poderia oferecer munição aos adversários políticos de Lula, além de atrair uma enxurrada de críticas na imprensa e nas redes sociais, um terreno onde o bolsonarismo, principal oposição ao governo atual, é bastante ativo.
Antes da apresentação, muitos dirigentes do Partido dos Trabalhadores (PT) já haviam identificado o potencial de backlash nas redes sociais, especialmente em relação à expectativa de que a primeira-dama participaria do desfile. A aversão à ideia era compartilhada por diversos aliados de Lula.
Embora Janja estivesse empolgada com a possibilidade de participar do evento, a avaliação jurídica do Planalto, que considerava que sua presença não configuraria um problema, foi contestada por eles. Ministros do governo foram explicitamente proibidos de desfilar, mas a análise legal indicava que a primeira-dama, por não ocupar um cargo formal, estava em uma posição relativamente segura.
Inesperadamente, muitos aliados que acompanhavam Lula no camarote da prefeitura no Rio ainda não tinham conhecimento da desistência de Janja até chegarem ao local. Essa falta de informação gerou uma mistura de alívio e surpresa entre os presentes.
Controvérsias e Oposição
Os adversários do governo rapidamente acusaram Lula, o PT e a escola de samba Acadêmicos de Niterói de promoverem uma propaganda eleitoral antecipada. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) respondeu às acusações na quinta-feira (12), rejeitando-as, mas não descartou a possibilidade de uma análise mais aprofundada de possíveis infrações.
Conforme relatado pela Folha, especialistas em direito eleitoral expressaram preocupações de que o desfile pudesse abrir precedentes para ações judiciais. Mesmo assim, alguns deles consideraram que a natureza contida da apresentação poderia mitigar eventuais danos.
Advogados que assessoram Lula sustentam que não havia impedimentos legais significativos para a realização do desfile da Acadêmicos de Niterói, argumentando que, se houvesse um problema sério, o TSE teria agido para impedir a apresentação.
Em nota, o departamento jurídico do PT defendeu que o enredo escolhido pela escola de samba era uma manifestação de liberdade artística e que a exaltação de uma figura política não configuraria uma campanha eleitoral antecipada. Para minimizar riscos jurídicos, o partido tomou medidas proativas, instruindo as seções petistas do Rio a não produzirem materiais promocionais que pudessem ser vistos como campanha.
Críticas e Riscos Financieros
Os opositores também levantaram questões sobre a destinação de R$ 1 milhão em recursos públicos para a escola de samba, parte do patrocínio que beneficiou todas as agremiações do Grupo Especial do Rio. Flávio Bolsonaro, senador e pré-candidato à presidência, anunciou que levará o caso ao TSE, denunciando ‘crimes’ associados ao governo petista na Sapucaí.
Além disso, o Partido Novo manifestou intenção de solicitar a inelegibilidade de Lula em decorrência do desfile, medida que deve ser oficializada durante o registro da candidatura, o qual tem prazo até 15 de agosto.
A primeira-dama, Janja, comunicou que sua decisão de não desfilar foi motivada pela intenção de evitar perseguições contra Lula e a escola de samba Acadêmicos de Niterói, que produziu o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”. A apresentação também incluiu críticas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que foi retratado de maneira negativa durante o desfile.
Avaliações de Aliados e Contexto Histórico
Aliados de Lula que conversaram com a reportagem consideram que o saldo do desfile foi positivo. Embora houvesse receios de vaias ou críticas à escola de samba ou ao presidente, manifestações de descontentamento não foram significativas entre o público presente.
No entanto, os petistas admitem que a escola que homenageou Lula pode não se sair bem na disputa do carnaval carioca, visto que a Acadêmicos de Niterói foi promovida ao Grupo Especial no ano anterior.
Durante sua presença na Sapucaí, Lula permaneceu maior parte do tempo em uma área restrita a ele no camarote da prefeitura, com segurança reforçada ao seu redor. Apesar disso, o presidente fez algumas interações com os presentes e chegou a descer com o prefeito, Eduardo Paes, até a área dos desfiles.
A maior parte das conversas mais longas de Lula ocorreu com Paes, que já é candidato a governador nas eleições de outubro. Entre os presentes estavam vários ministros e políticos convidados, além de sindicalistas de São Paulo. Este desfile foi notável, pois foi a primeira vez desde o governo Getúlio Vargas que uma escola de samba do Rio homenageou um presidente da República em exercício, lembrando os tempos de agremiações como Vila Isabel e Portela nos anos 1950.

