Uma Viagem Nostálgica pela Década de 90
Comprar CD e ouvir no walkman, rebobinar fita VHS antes de devolver na locadora, encontrar amigos sem a ajuda do Google Maps e passar horas conversando no telefone fixo ou em mesas de bar. Esses são apenas alguns dos elementos que definem a década de 1990! O Museu do Estado de Pernambuco (Mepe) convida o público a revisitar essa época com a exposição “Isso é bem anos 90!”, inaugurada nesta terça-feira (28) no Hall Cícero Dias.
A mostra apresenta obras do acervo do próprio museu de forma inédita, levando os visitantes a uma verdadeira viagem pelo universo cultural de Pernambuco nos anos 90. Esse período foi marcado por paradoxos: um cenário de instabilidade econômica e transformações políticas pós-redemocratização, que, paradoxalmente, coincidia com uma fervilhante efervescência cultural que reposicionou o Estado no mapa artístico brasileiro. Sob a curadoria do diretor do Mepe, Rinaldo Carvalho, e do artista plástico Márcio Almeida, a exposição reúne obras de artistas que já estavam ativos nesse contexto, muitos deles reconhecidos nos Salões de Arte de Pernambuco.
Os anos 90 foram, de fato, um momento de transição crucial nas artes visuais. Pernambuco, enquanto ainda dialogava com sua herança modernista, trazia nomes como Cícero Dias, Lula Cardoso Ayres e Abelardo da Hora como referências fundamentais. Ao mesmo tempo, uma nova geração de artistas buscava romper com as narrativas estabelecidas, se aproximando de questões contemporâneas como identidade, urbanização, violência e memória. Esse período também marca o início mais sólido da arte contemporânea no Estado, com o surgimento de linguagens híbridas que mesclavam pintura, instalação, fotografia e performance.
A Influência das Instituições e do Movimento Manguebeat
Instituições como o Mepe desempenharam um papel essencial na legitimação e na difusão dessas produções artísticas. Além disso, iniciativas independentes, ocupações artísticas e exposições coletivas ampliaram o debate estético e político na região. Gradualmente, Recife se consolidava como um polo de experimentação no Nordeste, unindo tradição regional e uma abordagem contemporânea.
A música também foi profundamente impactada nesse período, refletindo um forte intercâmbio com as artes visuais presente na exposição. O Movimento Manguebeat, que emergiu nos anos 90, colocou o Recife no centro da cena musical brasileira e até internacional. Liderado por ícones como Chico Science & Nação Zumbi, Mundo Livre S/A e Mestre Ambrósio, o movimento propôs uma ousada fusão entre ritmos tradicionais — como maracatu, coco, ciranda e embolada — e influências globais como rock, hip hop, funk e música eletrônica. O mangue, símbolo do ecossistema recifense, tornou-se uma metáfora poderosa de diversidade, fertilidade cultural e resistência.
Legado Cultural que Transcende Décadas
Ao revisitar os anos 90, a exposição “Isso é bem anos 90!” não só celebra um legado que transcende essa década, mas também evidencia como, ao final dos anos 1990, Pernambuco havia consolidado uma identidade cultural mais forte, ao mesmo tempo conectada com o mundo e profundamente enraizada em suas tradições. Entre os artistas que participam da mostra estão nomes como José Patrício, Rodrigo Braga, Betânia Corrêa de Araújo, José Paulo, Dantas Suassuna, Romero Andrade, Lorani e Gil Vicente.
Assim, a exposição não é apenas uma viagem ao passado, mas um convite à reflexão sobre como os ecos dessa época continuam a ressoar na cultura pernambucana contemporânea. Ao explorar a interseção entre arte e música, o Mepe oferece uma visão rica e diversificada do que significa ser um artista em Pernambuco, refletindo a complexidade e a riqueza cultural do Estado nos dias de hoje.

