domingo 18 de janeiro

Desafios e Oportunidades no Agronegócio

Como advogada internacional e ex-parlamentar italiana, tenho observado de perto as complexidades do comércio global, especialmente no setor agropecuário. O agronegócio, que é um motor econômico vital tanto para o Brasil quanto para a América Latina, está em um ponto crítico. A necessidade de adaptação a novas regulamentações internacionais e acordos comerciais tem se tornado premente. Este artigo analisa o atual panorama do agronegócio na região, explorando as oportunidades, desafios e estratégias para um crescimento sustentável.

Expansão e Resiliência da Indústria Agropecuária

Nos últimos anos, o agronegócio brasileiro e latino-americano mostrou uma resiliência impressionante. Fatores como inovações tecnológicas, extensas áreas cultiváveis e a crescente demanda global por commodities, incluindo soja, carne bovina, açúcar e etanol, sustentam a posição de destaque da região no comércio internacional. Em 2025, o Brasil registrou um marco histórico de exportações agropecuárias, superando US$ 169 bilhões, com a China se consolidando como o principal destino. No entanto, esse crescimento não é exclusivo do Brasil; países como a Argentina, Paraguai e Uruguai também têm relatado avanços significativos, impulsionados por investimentos estrangeiros e modernização logística.

Apesar dos desafios, como mudanças climáticas e flutuações nos preços internacionais, as projeções para a produção de alimentos na América Latina continuam otimistas. À medida que a população global cresce, a demanda por alimentos tende a aumentar. Contudo, a expansão do agronegócio não pode seguir sem restrições. Mercados maduros, como a União Europeia e a China, estão implementando normas regulatórias mais rigorosas, exigindo que o setor se adapte.

Impacts do Acordo União Europeia-Mercosul

Depois de mais de 25 anos de negociações, o acordo de associação entre a União Europeia e o Mercosul avançou significativamente em janeiro de 2026, com a aprovação da assinatura pelo Conselho Europeu. Este acordo é um dos maiores pactos de livre comércio do mundo, prevendo a eliminação de tarifas em mais de 90% das linhas tarifárias. Para os produtores latinos, isso representa uma chance de ampliar seu acesso ao mercado europeu, com um potencial crescimento das exportações nas próximas décadas que pode alcançar bilhões de euros até 2040.

Entretanto, o acordo também estabelece limites rigorosos. Produtos considerados sensíveis pela UE, como carne bovina e açúcar, estão sujeitos a cotas específicas. Por exemplo, a cota adicional para carne bovina é de apenas 99 mil toneladas métricas. Ao ultrapassar esse limite, tarifas elevadas serão reimpostas. Assim, enquanto a União Europeia vai liberalizar cerca de 82% de suas importações agrícolas do Mercosul, a contrapartida é que o bloco sul-americano eliminará tarifas sobre cerca de 93% das exportações europeias.

Essas salvaguardas são reflexo da pressão política exercida por agricultores europeus, que temem a concorrência dos produtos latino-americanos. Para permanecer competitivos, os agronegócios na região precisam investir em conformidade regulatória, focando em sustentabilidade e boas práticas agrícolas.

Diversificação e Estratégias de Crescimento

A China continua a ser um dos principais destinos das exportações agropecuárias da América Latina, sendo vital para a expansão do setor. Nos últimos anos, os investimentos chineses na região atingiram cifras bilionárias, especialmente em infraestrutura logística e acordos de fornecimento. Em 2023, o Brasil exportou mais de US$ 60 bilhões em produtos agrícolas para a China, representando uma porção significativa do comércio total com o país asiático. No entanto, esse relacionamento também enfrenta crescentes medidas protecionistas.

Cotizações recentes de importação para carne bovina impuseram um limite de 1,1 milhão de toneladas para o Brasil em 2026, o que pode resultar em perdas significativas para o setor agropecuário. Assim, a diversificação se torna essencial. Ampliar mercados, investir no processamento local e atender às exigências de qualidade e rastreabilidade são passos cruciais para reduzir a dependência de um único parceiro comercial.

A Adaptação como Caminho para a Sustentabilidade

O agronegócio latino-americano possui um potencial ímpar para continuar crescendo e mantendo liderança no abastecimento global de alimentos. Sua competitividade e capacidade de inovação são indiscutíveis. No entanto, as novas políticas e acordos comerciais exigem uma abordagem mais responsável e sustentável. É crucial que os governos e o setor produtivo trabalhem juntos, priorizando investimentos em tecnologia, diplomacia econômica e segurança jurídica.

A adaptação deve ser encarada não apenas como um custo, mas como uma oportunidade estratégica para consolidar a imagem do agronegócio latino-americano como um fornecedor confiável e alinhado com as exigências do século XXI. Com planejamento eficaz e decisões rápidas, a região pode assegurar sua posição de destaque no cenário global.

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