Habitação Popular com Foco na Integração Urbana
A política habitacional do Recife está passando por uma transformação significativa. Após anos de investimentos em conjuntos habitacionais localizados em áreas periféricas, afastadas de centros de trabalho e serviços, a gestão municipal agora aposta na integração urbana. O secretário de Habitação, Felipe Cury, explica que a abordagem mudou, priorizando não apenas a construção de casas, mas também a urbanização e a infraestrutura necessária para criar comunidades coesas. Em conversa com a jornalista Larissa Aguiar, Cury expõe detalhes sobre os desafios e inovações que, segundo a administração, fazem dessa a maior política habitacional da história da capital pernambucana.
O cenário que a cidade enfrenta é desafiador. A capital tem um déficit de aproximadamente 54 mil moradias, resultado de uma série de limitações históricas como a falta de terrenos públicos adequados, solo de baixa qualidade e a presença de imóveis desocupados no centro da cidade. A gestão municipal, com o apoio de recursos federais do programa Minha Casa Minha Vida e parcerias com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, já iniciou quase duas mil novas unidades nos últimos meses, destacando a importância de iniciativas como o ProMorar e a primeira Parceria Público-Privada (PPP) habitacional na área central.
A Desconexão entre Moradia e Cidade
A nova proposta municipal vai além do aumento do número de moradias. A intenção é abordar a desconexão entre os lares e a cidade. O objetivo é que as novas habitações sejam construídas em áreas consolidadas ou em processo de requalificação, com fácil acesso a transporte público, serviços essenciais e oportunidades de emprego. Essa estratégia não apenas reduz os custos para as famílias, mas também evita a criação de áreas urbanas desertas. Assim, a habitação se torna parte de uma agenda de desenvolvimento urbano mais ampla, que busca reocupar o centro da cidade e enfrentar as desigualdades sociais que historicamente afligiram o Recife.
Histórico de Deslocamentos e a Nova Lógica Habitacional
Historicamente, um dos maiores problemas enfrentados na habitação popular no Brasil foi a construção de conjuntos habitacionais em locais distantes das necessidades diárias da população. O que a Prefeitura do Recife propõe, então, é uma mudança de paradigma. Cury destaca que “não basta apenas erguer unidades habitacionais; é crucial que elas estejam próximas de onde as pessoas vivem e trabalham”. Um exemplo emblemático que ilustra essa questão é o caso do Casarão do Cordeiro, que relocated famílias de Brasília Teimosa para lugares distantes, rompendo com suas redes de suporte e emprego.
Atualmente, a produção de habitações na cidade é feita através do Minha Casa Minha Vida, com uma ênfase marcante em terrenos que fazem parte da malha urbana já consolidada. O programa estabelece que nenhuma nova construção pode estar a mais de um quilômetro do local de origem das famílias, além de exigir a proximidade de transporte público, escolas e serviços de saúde. Mais que construir, a gestão municipal se dedica a promover urbanização social, incluindo melhorias como pavimentação e instalação de infraestrutura básica.
Critérios Urbanísticos e Projetos Integrados
Sobre projetos específicos, como os do Caranguejo Tabaiares, nos bairros de Afogados e Ilha do Retiro, Cury explica que a escolha do terreno leva em conta a disponibilidade de serviços públicos. “A avaliação inclui transporte, saúde, educação e saneamento. Se um local não dispõe de esgoto, a prefeitura se encarrega de instalar o sistema”, afirma.
Na prática, a estratégia envolve priorizar áreas já ocupara, de maneira a minimizar deslocamentos longos e promover uma integração viária que converse com as comunidades vizinhas. O Programa Minha Casa Minha Vida se tornou uma peça fundamental na política habitacional de Recife, embora a gestão enfrente desafios burocráticos, como a exigência de procurações para beneficiários que não conseguem assinar, o que pode onerar financeiramente famílias em situação de vulnerabilidade.
Financiamento e Sustentabilidade da Política Habitacional
A gestão também tem buscado apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento, com o objetivo não só de construir moradias, mas de promover uma urbanização ampla. Esse financiamento exige rigor nas metas, prazos e prestação de contas. “O diferencial é o volume de recursos, que permite intervenções significativas em várias comunidades”, destaca Cury.
Dos R$ 350 milhões investidos em novas unidades nos últimos seis meses, a sustentabilidade da política habitacional dependerá da continuidade dessas parcerias e da capacidade de captação de recursos. Sem essa colaboração, a prefeitura não conseguiria manter o ritmo de execução.
Transformação Social e Requalificação Urbana
Empreendimentos como o Conjunto Habitacional São José, no Coque, e a Comunidade do Bem, na Imbiribeira, foram concebidos como parte de projetos integradores de urbanização. Essas iniciativas visam garantir que as famílias permaneçam em seus territórios, evitando que as realocações ocorram para áreas periféricas. A política de “Morar no Centro” e a PPP de reocupação do Centro buscam reverter padrões históricos de distanciamento e gentrificação, priorizando a permanência e a diversidade social.
A gestão municipal acredita que, com o avanço das obras nos últimos quatro anos, superará a marca de seis mil unidades habitacionais, sustentando assim a afirmação de que está implementando a maior política habitacional da história do Recife.

