Uma Nova Perspectiva sobre a Marcha do Vassourinhas
RECIFE, PE E SALVADOR, BA – Durante os dias de folia no Carnaval de Recife, um dos temas que desperta curiosidade é a origem da “Marcha Número 1 do Vassourinhas”, um dos frevos mais emblemáticos e queridos de Pernambuco. O antropólogo Helmut Paulus Kleinsorgen, em conjunto com a genealogista Mirian Scisinio Lindgren, lançou luz sobre a complexa história por trás dessa composição. Os pesquisadores identificaram registros que desafiam a cronologia tradicional atribuída à criação da música, revelando uma trama recheada de lacunas e erros que merecem ser revisados.
A principal descoberta da investigação, que teve início em 2019, foi a certidão de nascimento de Joana Batista Ramos, a quem se atribui a autoria do frevo ao lado de Mathias Theodoro da Rocha. O documento revela que Joana nasceu em 24 de junho de 1881, o que a tornaria apenas uma criança de sete anos em janeiro de 1889, período em que o Vassourinhas foi fundado.
Autoria e Herança Musical
Os pesquisadores levantam a hipótese de que Joana tenha herdado a composição de Mathias, que era seu primo e 17 anos mais velho. “O que posso comprovar é que Joana só foi reconhecida como compositora em um registro cartorial de 1949, assinado pelo então presidente Severino José de Oliveira”, explica Kleinsorgen. A aparição de Joana nos registros do Vassourinhas parece estar ligada à necessidade de regularizar a propriedade da obra, suscitando questões sobre a verdadeira paternidade da canção.
Por muitos anos, o que se sabia sobre Joana era limitado, baseado em sua certidão de óbito de 1952 e uma declaração de 1949 que datava a criação da marcha em 6 de janeiro de 1909. Outro achado significativo foi um recibo datado de 18 de novembro de 1910, que comprova que Joana e Mathias venderam a composição ao Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas por 3.000 réis. No entanto, o documento só foi registrado em cartório em fevereiro de 1980, levantando indícios de possíveis irregularidades.
Desvendando as Relações Familiares
Mathias da Rocha faleceu em julho de 1907, o que torna duvidosa a teoria de que ele teria assinado o recibo de venda em 1910. “Isso reforça a minha suspeita de que Joana Batista seria, de fato, a única herdeira de sua composição”, afirma o pesquisador. A documentação sugere que, após a morte de Mathias, os gestores do clube tomaram medidas para proteger a obra, reconhecendo-a como um importante patrimônio cultural.
Além disso, a pesquisa revelou informações sobre a genealogia de Joana. Seu avô paterno, Benedicto Jacques Laborião, ocupava um cargo relevante na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos em 1868, enquanto Mathias e os presidentes do Vassourinhas também faziam parte dessa irmandade, indicando laços de cooperação que podem ter influenciado a história musical da época.
Uma Vida de Lutas e Conquistas
Outro achado relevante foi a certidão de casamento de Joana, datada de 8 de fevereiro de 1902, que revela seu sobrenome de solteira como Jacques. O ato foi assinado “a rogo da nubente que não sabe escrever”, sugerindo que Joana poderia ser analfabeta. Essa condição também é observada no registro de 1949, que foi assinado em seu nome pelo presidente do Vassourinhas.
A pesquisa trouxe à tona aspectos da vida de Joana que foram negligenciados. Ao contrário do que se acreditava, ela não era filha de escravizados. Seu pai, Umbelino José Jacques, atuou como músico para a Guarda Nacional e participou da Guerra do Paraguai, enquanto sua mãe, Raymunda Alexandrina Gomes, faleceu de tuberculose aos 30 anos.
A Marcha que Encanta Gerações
A “Marcha Número 1 do Vassourinhas” se tornou um marco do carnaval pernambucano, tocada frequentemente em festividades e eventos culturais. A canção foi gravada pela primeira vez em 1945, pela gravadora Continental, com uma interpretação de Deo e Castro Barbosa. A letra original passou por mudanças ao longo do tempo e, atualmente, a execução é predominantemente instrumental, solidificando sua importância na cultura frevista.

