Masculinidade em Crise e a Machosfera Brasileira
No final de 2025, um estudo realizado por Julie C. Ricard e sua equipe na Fundação Getúlio Vargas trouxe à luz um fenômeno frequentemente considerado uma subcultura marginal na internet. O levantamento identificou cerca de 85 comunidades da machosfera no Telegram, somando mais de 220 mil usuários e aproximadamente 7 milhões de conteúdos publicados desde 2015. Os dados revelam um crescimento exponencial, com o volume de postagens saltando quase 600 vezes entre 2019 e 2025, especialmente após a pandemia. Esse crescimento consolidou um espaço comunicacional dedicado à propagação de narrativas masculinistas, ressentimento em relação ao gênero e hostilidade contra mulheres.
Essas comunidades operam em diversas camadas discursivas. Enquanto algumas manifestam abertamente a misoginia, outras se disfarçam sob a aparência de desenvolvimento pessoal masculino, finanças ou debates culturais. Apesar dos diferentes rótulos, um conjunto coeso de ideias permeia o discurso: vitimização masculina, críticas ao feminismo, teorias sobre o mercado sexual e uma suposta guerra cultural contra a chamada ideologia de gênero.
É crucial notar que esse universo não se limita à extrema direita. A narrativa de vitimização masculina, aliada à denúncia de uma perseguição cultural e à crítica de pautas de gênero, circula facilmente entre variados espectros ideológicos. Essa dinâmica não implica equivalência ideológica, mas evidencia a presença de uma gramática masculina comum, capaz de transitar por divisões políticas quando a masculinidade é sentida como ameaçada. A renomada filósofa Judith Butler, em sua obra ‘Problemas de Gênero’, propõe que o gênero não é uma essência fixa, mas uma performance que precisa ser constantemente reafirmada.
O Fenômeno do Cancelamento e suas Implicações
O fenômeno do cancelamento emergiu como um novo elemento nessa dinâmica social. De maneira ampla, o cancelamento refere-se a uma sanção social gerada nas redes quando indivíduos são expostos por comportamentos considerados inadequados. Embora inicialmente possa parecer uma forma abrangente de responsabilização, seus efeitos são, na prática, profundamente desiguais.
Mulheres costumam enfrentar campanhas de difamação prolongadas e violência sexualizada, enquanto homens com um capital simbólico maior frequentemente vivenciam o cancelamento de forma distinta. Para eles, o estigma inicial pode se transformar em um catalisador para novas redes de solidariedade masculina, onde a figura do ‘cancelado’ reconfigura sua presença pública com base em narrativas de injustiça ou censura. Neste contexto, o cancelamento se transforma em uma identidade política.
A literatura a respeito do cancelamento descreve um sujeito que vê a vigilância digital contínua como uma prova de uma perseguição coletiva. A exclusão simbólica é reinterpretada não como consequência de atos específicos, mas como parte de um sistema moral hostil.
A Reação dos Homens e a Nova Identidade Política
Esse fenômeno resulta em uma identidade reativa; o indivíduo não apenas responde à crítica, mas reorganiza sua posição pública a partir dela. Nesse sentido, o rótulo de cancelado se torna um componente essencial da própria identidade política. Simone de Beauvoir, em ‘O Segundo Sexo’, argumenta que a construção histórica da masculinidade se deu em oposição à figura feminina, que sempre foi vista como o Outro, sem uma perspectiva própria.
Recentemente, o presidente Lula convocou homens a se envolverem ativamente no combate ao feminicídio e à violência de gênero, uma mudança significativa nas responsabilidades históricas que recairam quase exclusivamente sobre mulheres e movimentos feministas. Essa convocação, no entanto, foi percebida por muitos homens não como um convite à transformação, mas como um ataque. Surge aí uma reação defensiva, onde a percepção de que a masculinidade está sendo alvo de vigilância ou cobrança se intensifica, alimentando novas formas de solidariedade masculina e o fenômeno do ‘homem cancelado’ emerge como uma nova identidade política.
Esse novo cenário está associado a uma rede de solidariedade masculina que se torna cada vez mais visível em ambientes digitais. A filósofa Márcia Tiburi, em entrevista ao canal Mídia Livre, apontou como denúncias feitas por mulheres são frequentemente deslocadas para uma narrativa de vitimização masculina, onde o homem denunciado se apresenta como alvo de feministas, transformando a mulher em inimiga. Este fenômeno revela uma operação discursiva que mistura vitimização masculina com monetização da misoginia e mobilização de apoiadores.
