quarta-feira 29 de abril

Tributo à Música de Coltrane

Considerado um ícone indiscutível do jazz, John Coltrane (1926-1967) foi um divisor de águas na música improvisada e na própria concepção de performance. Seu domínio técnico e a intensa expressividade ao tocar saxofone garantiram que seu legado se mantivesse vivo por quase um século. Para celebrar essa trajetória, a primeira edição de 2026 do projeto Na Sombra das Mangueiras realizará um tributo ao artista, comandado pelo Vinicius Mendes Quarteto, nesta quinta-feira (30/4), coincidentemente no Dia Internacional do Jazz, nos belos jardins da Casa Fiat de cultura.

“Coltrane pega o contexto do jazz e eleva isso a um nível muito alto”, afirmou Vinicius Mendes. “A profundidade de sua obra reside mais na forma como transformou o improviso em uma linguagem central, quase criando um idioma para o saxofone e a interação com o quarteto, pontos fundamentais de sua música”, acrescentou, citando o grupo consagrado que Coltrane formou com o pianista McCoy Tyner (1938-2020), o baterista Elvin Jones (1927-2004) e o baixista Jimmy Garrison (1934-1976).

Interpretar a obra de Coltrane no palco apresenta um desafio evidente: como prestar homenagem a um artista cuja essência é a improvisação?

A resposta encontrada pelo quarteto mineiro, montado especialmente para essa apresentação, que conta com Vinicius Mendes (saxofone e voz), Rodrigo Zolet (piano), Davi de Oliveira (baixo acústico) e André Limão Queiroz (bateria), foi se respaldar nas estruturas originais de suas composições, mas evitando qualquer tentativa de reprodução literal.

“Jazz é música essencialmente improvisada”, enfatizou Vinicius. “Executamos os temas, mas sempre abrimos espaço para a improvisação.”

A Estrutura do Jazz

A apresentação segue a clássica lógica do jazz: início com um tema, seguido de improvisações e depois o retorno ao tema. A melodia serve como um ponto de partida para criações em tempo real. Até mesmo os trechos mais icônicos da obra de Coltrane não são reproduzidos de forma rígida.

Com duração aproximada de 60 minutos, o concerto oferece um panorama das principais fases da carreira de Coltrane, abrangendo desde o hard bop até o free jazz, incluindo as complexas sequências conhecidas como “Coltrane changes” e a fase modal.

No hard bop, período que se estende de 1955 a 1959, as composições possuem estruturas mais reconhecíveis, alinhadas ao blues e ao gospel, permitindo que um tema claro sirva como base para improvisações. Já no período dos “Coltrane changes”, que vai de 1959 a 1961, o músico leva a linguagem harmônica a novos limites, criando sequências de acordes intrincadas executadas em alta velocidade.

Em seguida, durante o movimento de abertura para a fase modal, que se destaca na primeira metade da década de 1960, observa-se uma redução no número de acordes, ampliando os espaços para a improvisação. Essa mudança permite que as ideias se desenvolvam de maneira mais tranquila e profunda ao longo do improviso, culminando na fase mais radical de Coltrane, a partir de 1965, quando ele se aproxima do free jazz e começa a romper com estruturas fixas, tornando a música mais intensa e inesperada.

Aspectos Espirituais e Influências

Todo esse caminho musical estará presente no concerto do Vinicius Mendes Quarteto, que prioriza as fases “Coltrane changes” e modal, os dois pilares centrais da obra de Coltrane. Entre os temas selecionados, estão faixas de álbuns marcantes como “My Favorite Things” (1961), “A Love Supreme” (1964) e “Transition” (1970).

Além das inovações no campo técnico, Mendes aborda a dimensão espiritual da música de Coltrane, especialmente a partir de “A Love Supreme”, que dialoga com as raízes do jazz: spirituals, work songs e blues. No primeiro, existe uma estreita conexão entre música e prática religiosa, com melodias que transmitem forte carga emocional e coletiva, evidenciando a expressão de fé e resistência.

As work songs, cantadas por trabalhadores negros durante atividades extenuantes, apresentam ritmos repetitivos que refletem a relação entre corpo e som. Por sua vez, o blues consolida toda essa herança em uma forma musical que foca na expressão individual e nas experiências cotidianas.

Coltrane incorpora esses elementos em sua obra, flertando com a ideia de expressão coletiva e, muitas vezes, de busca espiritual. “Você percebe na música dele uma poética muito próxima do canto”, ressalta Vinicius Mendes. “Mesmo em formas mais livres, o blues está sempre presente,” conclui.

A influência de John Coltrane se estende ainda hoje, penetrando na cena musical brasileira. O pianista Amaro Freitas, por exemplo, é destacado por Vinicius Mendes como um artista que dialoga com essa rica herança. O próprio Vinicius carrega características de Coltrane em sua produção autoral, explorando liberdade criativa e performance coletiva. “Coltrane é, sem dúvida, um músico que elevou o jazz a um novo patamar,” finaliza o saxofonista.

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