terça-feira 13 de janeiro

Os Efeitos Imediatos da Crise Geopolítica

A recente crise geopolítica, marcada pelo ataque aéreo dos Estados Unidos à Venezuela na madrugada do último sábado (3) e pela subsequente captura de Nicolás Maduro, acendeu um alerta no agronegócio brasileiro. Embora a Venezuela não seja um dos principais parceiros comerciais do Brasil atualmente, a nação sul-americana havia gradualmente retomado suas importações de produtos agrícolas brasileiros, um movimento que agora se vê abruptamente interrompido.

Entre 2021 e 2022, mais de US$ 1 bilhão em produtos agrícolas brasileiros foi exportado para a Venezuela, destacando-se itens como óleo de soja, açúcar, milho e arroz. O conflito atual interrompeu contratos em curso, travou embarques e reiniciou um risco conhecido dos exportadores: a inadimplência. A instabilidade política, a destruição de infraestrutura e as incertezas institucionais aumentam o temor de calotes e cancelamentos definitivos, levando empresas brasileiras a suspender novos negócios, exigir pagamentos antecipados e rever sua exposição ao mercado venezuelano.

Grãos e Açúcar: O Impacto no Setor

Apesar de representar apenas 0,6% das exportações agropecuárias do Brasil em 2024, a Venezuela se mostrava um mercado em recuperação, especialmente para produtos básicos. A interrupção das exportações de milho e arroz, somada à paralisação das vendas de açúcar, obriga produtores e tradings a redirecionarem suas cargas a outros mercados. Isso pode provocar pressões nos preços internos a curto prazo e inflacionar os custos logísticos. Apesar de a participação da Venezuela ser pequena no total exportado, o efeito imediato é sentido com mais intensidade por empresas que operam com margens mais estreitas.

Carnes: Um Cenário Preocupante

Quando o assunto são as proteínas animais, o impacto se mostra mais contido. Embora a Venezuela tenha desempenhado um papel significativo no passado, com a importação de mais de 360 mil toneladas de carnes brasileiras em 2014, essa demanda viu uma queda drástica na última década. Em 2024, as exportações caíram para cerca de 5,2 mil toneladas, uma redução impressionante de 98,6%. Contudo, frigoríficos que atendiam nichos específicos, especialmente em carne de frango de menor valor, enfrentam a perda de um destino imediato.

Fertilizantes e a Pressão Energética

O setor de fertilizantes e energia é o mais vulnerável. Aproximadamente 45% das exportações venezuelanas para o Brasil são compostas por fertilizantes e derivados de petróleo. A interrupção desse fluxo pressiona os custos de produção, especialmente em um país que já depende fortemente de insumos importados. A solução através de fornecedores mais distantes ou mais caros é uma alternativa que tende a prejudicar as margens de lucro. Além disso, qualquer choque prolongado no mercado de petróleo pode elevar os custos de combustíveis, fretes e operações agrícolas em todo o Brasil.

Desafios Logísticos e Fronteiras Fechadas

Os efeitos logísticos foram quase imediatos. Horas após os ataques, o governo venezuelano fechou a fronteira terrestre com o Brasil, especialmente na região de Pacaraima (RR), interrompendo o fluxo regular de cargas e pessoas. Apesar de o lado brasileiro ter mantido a fronteira aberta, o bloqueio do lado venezuelano paralisou o transporte rodoviário, afetando tanto pequenos comerciantes quanto exportadores de alimentos e insumos. As empresas do agronegócio brasileiras relatam incertezas quanto a prazos e ao desembaraço de cargas já enviadas, enquanto produtores que dependiam do mercado venezuelano enfrentam o desafio de armazenar excessos ou redirecionar embarques, muitas vezes com custos adicionais.

A Diplomacia e Seus Reflexos no Comércio

Politicamente, o Brasil se vê em uma posição delicada. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva condenou publicamente a ação militar dos EUA, reforçando a defesa da soberania regional e a resolução pacífica de conflitos. Essa posição, alinhada a outros países da América Latina, preserva os princípios históricos da diplomacia brasileira, mas pode gerar ruídos nas relações com Washington. Comercialmente, a incerteza é palpável. Um novo governo venezuelano alinhado aos interesses dos EUA pode rever parcerias e limitar a participação de empresas brasileiras em processos de reconstrução e abastecimento. Ao mesmo tempo, o Brasil busca manter canais abertos e atuar em fóruns multilaterais como ONU, OEA e Mercosul, tentando preservar sua influência na região.

Riscos e Oportunidades para o Agronegócio Brasileiro

A crise atual apresenta riscos significativos, como a perda de um mercado em recuperação, o aumento da inadimplência, o aumento dos custos de produção e o estresse logístico. Ao mesmo tempo, surgem oportunidades, como a aceleração da diversificação de mercados, o fortalecimento dos biocombustíveis e uma participação em um eventual processo de reconstrução na Venezuela, caso haja uma estabilização política.

O ataque dos EUA à Venezuela pode ser visto como um ponto de inflexão para a região, representando um teste de resiliência para o agronegócio brasileiro. Embora haja perdas imediatas, as lições estratégicas podem reforçar o setor a longo prazo. A adaptação do agronegócio brasileiro às instabilidades externas, assim como a busca por ajustes internos que aumentem a competitividade e a sustentabilidade, será crucial para enfrentar os desafios futuros.

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