Israel e as ONGs em Gaza: Um Cenário Crítico
Na esteira da visita do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, a Washington, onde conversou com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a situação em Gaza se agrava. Trump declarou que o Hamas pagará um “preço alto” caso não desista de suas armas. Essa afirmação é parte de um acordo de paz em andamento entre EUA e Israel, que visa a reconstrução do enclave, mas gera desconfiança entre os moradores de Gaza, que enfrentam uma crise humanitária severa.
O cotidiano dos palestinos em Gaza gira em torno da luta pela sobrevivência. Oum Ahed, uma moradora de 50 anos, expressa sua frustração com a condição precária em que vive. “As pequenas tendas que recebemos foram levadas pelo vento nos últimos dias”, lamenta. “À noite, as pessoas se desesperam porque as águas sobem e arrastam tudo, incluindo nossas barracas. Precisamos de abrigos mais seguros, pois não sabemos quanto tempo ainda ficaremos aqui”, desabafa.
Outro residente, Hamdi Ali, destaca o ceticismo que predomina entre eles em relação às negociações com Israel. Sua prioridade, afirma, é garantir sustento para sua família de oito pessoas. “Não sabemos o que nos espera e não confiamos em ninguém, exceto em Deus. Os países estrangeiros parecem zombar de nós”, relata.
O cientista político e economista Mohamed Abou Jiab observa que a vontade dos EUA de avançar com seus interesses estratégicos na região poderia facilitar a manutenção do cessar-fogo e a reconstrução em Gaza. No entanto, ele ressalta que essa esperança esbarra em desafios técnicos e logísticos, como a necessidade de resoluções financeiras e apoio adequado à população local.
Ameaça às ONGs e Respostas da Comunidade Internacional
Recentemente, Israel anunciou a intenção de proibir a atuação de 37 ONGs em Gaza a partir de 1º de dezembro. As organizações foram notificadas a enviar, até o dia 31 de dezembro, a lista de seus funcionários palestinos, em meio à grave crise humanitária que atinge 2,2 milhões de pessoas. O governo israelense justifica a medida alegando que dois membros da ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) teriam ligações com organizações terroristas.
Em um comunicado divulgado pelo Ministério da Diáspora e da Luta contra o Antissemitismo, as ONGs que não cumprirem a exigência de enviar a lista de funcionários correm o risco de ter suas licenças canceladas a partir de 1º de janeiro. Essas organizações terão até 1º de março de 2026 para encerrar suas atividades.
Em resposta, a União Europeia se manifestou, alertando que a suspensão das ONGs prejudicará a entrega de ajuda humanitária essencial. A comissária europeia Hadja Lahbib enfatizou que a lei sobre o registro de ONGs não pode ser aplicada nas condições atuais, pedindo a remoção de todos os obstáculos ao acesso da ajuda humanitária.
Paises como França, Reino Unido e Canadá, juntamente com outras nações, pediram que Israel tome medidas imediatas diante da situação em Gaza. O Ministério das Relações Exteriores britânico publicou um comunicado solicitando que o país permita um funcionamento sustentável das ONGs e que a ONU consiga prosseguir com seu trabalho na região.
Os ministros de Relações Exteriores de diversos países, incluindo Canadá, Dinamarca e França, expressaram sua preocupação com a contínua deterioração da situação humanitária em Gaza. Eles pedem a suspensão de restrições excessivas à importação de materiais essenciais, como itens médicos e abrigos, e a abertura das passagens fronteiriças para aumentar o fluxo de ajuda humanitária.
Acusações e Defesas
O governo israelense defende que apenas 15% das ONGs estão sob as novas restrições, argumentando que existem motivos legítimos para a revogação de licenças, incluindo ações de deslegitimação do país e processos judiciais contra soldados israelenses. O ministério afirma que algumas organizações internacionais estiveram envolvidas em atividades terroristas, citando a MSF como exemplo, alegando que um membro da Jihad Islâmica Palestina foi identificado como funcionário da ONG.
Por outro lado, a Médicos Sem Fronteiras se defende, afirmando que nunca contrataria intencionalmente indivíduos envolvidos em atividades militares e que mantém um diálogo contínuo com as autoridades israelenses. A organização expressou suas preocupações diante da exigência de envio obrigatório das identidades dos seus funcionários, e ressaltou que a operação na Faixa de Gaza já enfrenta sérias dificuldades após dois anos de guerra.
Das aproximadamente 100 solicitações de registro feitas nos últimos meses, apenas 14 foram rejeitadas até o final de novembro. Segundo informações do ministério, a maioria das ONGs registradas opera na Faixa de Gaza e continuará suas atividades. O ministério ainda assegura que 99% da ajuda humanitária não será afetada por essas novas medidas.
