segunda-feira 13 de abril

Reflexões sobre o Termo ‘Cultura’

Em uma participação recente no podcast Lost In Vegas, o rapper J. Cole expressou sua preocupação com uma mudança significativa na linguagem do hip hop: o esvaziamento do termo ‘cultura’. Para ele, uma palavra que outrora carregava um significado profundo sobre identidade e pertencimento, hoje se resume a um mero instrumento de marketing e algoritmos.

“É uma palavra vazia agora”, declarou Cole durante a entrevista. “Costumava significar algo. Agora é só um termo para criar hype que não quer dizer nada. O que vocês estão chamando de cultura é na verdade adquirido por meio de campanhas pagas ou simplesmente o algoritmo”. A reflexão de Cole destaca como a internet transformou a velocidade de circulação cultural em um desafio. Expressões que nascem em comunidades negras são rapidamente absorvidas e replicadas globalmente, perdendo contexto e origem no processo.

Ele ainda enfatizou: “Por causa da ‘cultura’, que é na verdade só a economia da internet, uma palavra não sai da boca de mulheres negras por mais de um ou dois dias antes de já ter sido capturada”. Essa crítica revela sua visão sobre a superficialidade que permeia a interpretação moderna do conceito de cultura, especialmente no espaço digital.

A Nova Turnê e O Lançamento de ‘The Fall-Off’

A entrevista de J. Cole ocorre em um momento de grande expectativa, com seu sétimo álbum de estúdio, The Fall-Off, prestes a ganhar uma turnê mundial. As apresentações têm início em julho, abrangendo a América do Norte, Europa, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul, com o encerramento previsto para dezembro. A pré-venda do álbum já quebrou recordes, com 800 mil ingressos vendidos, tornando-se a maior venda de entradas de uma turnê de hip hop em 18 mercados simultaneamente. O sucesso levou Cole a expandir sua agenda inicial de 54 para 73 datas, adicionando 19 shows em arenas.

Antes de embarcar nessa grande turnê, o artista tem percorrido os Estados Unidos com a iniciativa Trunk Sale Tour, onde vende CDs do porta-malas de seu antigo Honda Civic, uma ação que combina nostalgia e autenticidade.

Explorando ‘The Fall-Off’

O conceito do álbum é simples, mas impactante: ele se baseia em duas viagens que Cole fez a Fayetteville, Carolina do Norte, sua cidade natal. A primeira ocorreu aos 29 anos, quando ele deixava Nova York, imerso em suas ambições, e a segunda, aos 39, já casado e pai de dois filhos, refletindo sobre a carga emocional adquirida ao longo de uma década no topo. Cada viagem deu origem a um disco, que juntos funcionam como retratos de um homem que retorna ao lar, mas que não é mais o mesmo, percebendo que a fama o transformou de maneiras que dificultam seu retorno.

O tema central perpassa todo o álbum: Cole sempre desejou a fama, mas atualmente busca reconectar-se com as emoções que experimentava no início de sua carreira. A relação com Fayetteville, carinhosamente chamada de “the Ville”, se distanciou, não por falta de amor, mas pelas mudanças que o sucesso impôs. Ao voltar, Cole se depara com amigos que enfrentam dificuldades e uma realidade que não mais condiz com a sua. Ele frequenta os mesmos lugares, mas agora precisa avaliar seus movimentos por conta do medo de violência ou de se tornar uma manchete. Essa tensão — o desejo de pertencer, mas a percepção de que isso não é mais possível — é o que impulsiona a narrativa de The Fall-Off.

A obra foi bem recebida, sendo classificada como um clássico instantâneo, posicionando-se ao lado de 2014 Forest Hills Drive e 4 Your Eyez Only como a tríade definitiva em sua carreira. Com uma abordagem ambiciosa e densa, cada audição do álbum revela novas camadas e conexões entre as faixas que pareciam isoladas. A decisão de Cole de se afastar dos conflitos com Kendrick e Drake também lhe permitiu focar no que sempre fez melhor: oferecer uma rap introspectivo e honesto, priorizando um diálogo sincero consigo mesmo. Acredita-se que The Fall-Off não será seu último trabalho. Se Cole continuar sendo fiel à sua essência, esta obra tem tudo para se tornar um marco atemporal, que será revisitada e estudada ao longo dos anos.

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