Uma Nova Perspectiva sobre J’onn J’onzz
Se Roy Lichtenstein se apropriou dos quadrinhos em suas obras, o espanhol Javier Rodríguez resgata esses elementos em seus projetos como ilustrador. Um exemplo é o quadrinho “Absolute Caçador de Marte” (Panini), onde ele, junto ao roteirista Deniz Camp, oferece uma nova origem ao icônico personagem da DC Comics conhecido como J’onn J’onzz, ou Ajax, o marciano em nosso país.
Assim como outros heróis da editora americana, como Batman e Superman, J’onn J’onzz recebeu um reboot no universo Absolute, um espaço mais obscuro e instável. Nesse novo cenário, super-heróis emergem em contextos sociais e políticos desfavoráveis, muitas vezes sem a tradicional rede de apoio. Por exemplo, Bruce Wayne é retratado como um proletário sem mordomo, enquanto a Mulher-Maravilha origina-se não das amazonas, mas de uma bruxa no inferno.
Sucesso Editorial com 12 Milhões de Cópias
A linha Absolute se destacou como um dos maiores sucessos do mercado editorial, com quase 12 milhões de cópias vendidas, conforme divulgado pelo The Hollywood Reporter. As histórias exploram novas origens e conflitos intensos, colocando personagens conhecidos diante de dilemas inusitados em um mundo que frequentemente desconfia deles.
No enredo de Camp e Rodríguez, J’onn J’onzz é uma entidade marciana que invade a mente de John Jones, um policial atormentado. Com o aumento de crimes perturbadores na cidade, as fronteiras entre identidade, memória e consciência começam a se desfazer, trazendo à tona um protagonista dividido entre sua essência alienígena e a vulnerabilidade psicológica de seu hospedeiro humano.
Processo Criativo e Estilo Visual
Rodríguez, que estará no Brasil para a CCXP no final do ano, conta que o convite para ilustrar esta nova versão do Caçador de Marte foi feito enquanto ele finalizava “Zatanna: quebrando tudo” (Panini), uma série premiada com o Eisner no ano anterior e escrita por Mariko Tamaki.
— Deniz visualizava os pensamentos dos personagens como uma fumaça colorida saindo das orelhas das pessoas — compartilha o artista de 53 anos. — E o Caçador de Marte, que originalmente tinha múltiplas formas, era parte dessa fumaça.
Buscando uma paleta de cores que refletisse a essência do personagem, Rodríguez utilizou tons vibrantes de verde, azul, vermelho e amarelo. Ele explica:
— A partir das cores originais, desenvolvi uma paleta com mais três tons que impactassem as páginas e fossem reconhecíveis pelos leitores. Assim, quando as cores da fumaça dos pensamentos aparecessem, elas vibrariam em contraste.
Reinterpretação de J’onn J’onzz
Visualmente, o trabalho de Rodríguez impressiona não apenas pelas cores, mas também pela reinterpretarão física de J’onn J’onzz.
— Sabia que precisava criar algo impactante, já que ele dividiria cenas com Batman, Superman e a Mulher-Maravilha. Busquei um design radical — explica o artista por e-mail. — Para isso, saí da minha zona de conforto e pedi a um amigo que me indicasse um software simples para iniciantes em 3D. Ele sugeriu: “Use massinha de modelar.” Assim, comprei dois quilos de massinha verde e moldei diversas figuras até chegar ao resultado desejado. A ideia era criar um único olho, um cíclope, que também funcionasse como uma grande máscara ancestral.
Foco nas Personagens Femininas
Além de Zatanna, Rodríguez também tem experiência com personagens do universo Marvel, como Mulher-Aranha, Gata Negra e Spider-Gwen. Ele observa:
— Sinto curiosidade acerca das personagens femininas e busco aprender com elas. Para criar um personagem crível, é essencial fazer muitas perguntas antes de decidir o que mostrar e o que omitir, facilitando a narrativa.
Antes de se destacar no mercado norte-americano, trabalhava em revistas como “El Víbora” em seu país natal, e afirma não perceber uma grande diferença entre os formatos:
— Abordo todos os trabalhos da mesma maneira. O que quero contar? Para quem? Na “El Víbora”, os capítulos tinham 8 ou 10 páginas; nos quadrinhos, cerca de 20. Procuro entender as semelhanças e diferenças entre eles e trabalhar os limites de cada formato. Meu objetivo é ser o mais puro possível na linguagem que utilizo.
