O Impacto das Políticas Culturais na Trajetória de Kleber Mendonça Filho
A jornada que levou “O Agente Secreto” a ser indicado ao Oscar em quatro categorias, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção de Elenco, é repleta de políticas públicas que fomentaram a cultura no Brasil. O sucesso do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho é resultado de décadas de trabalho criativo, sempre alinhado ao fortalecimento das iniciativas de apoio ao audiovisual no país.
Para a realização de “O Agente Secreto”, o filme se beneficiou do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), um dos principais pilares do financiamento público cultural. Com 20 anos de existência em 2024, o FSA é gerido pela Agência Nacional de Cinema (Ancine) e atua como uma extensão do Fundo Nacional de Cultura, vinculado ao Ministério da Cultura. O fundo também foi uma fonte de recursos para outros projetos do diretor, incluindo “Aquarius” (2016), “Bacurau” (2019) e “Retratos Fantasmas” (2023).
Considerado a principal fonte de financiamento para a produção audiovisual no Brasil, o FSA se sustenta através da arrecadação da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine), o imposto mais relevante da indústria cinematográfica no Brasil. Essa dinâmica permite que o fundo funcione de maneira autossustentável, beneficiando a cadeia produtiva do cinema nacional.
A professora Mannu Costa, do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ressalta que o FSA teve um papel crucial na formação de novos talentos e na promoção de inovações narrativas e estéticas. Além disso, as políticas de incentivo também buscaram regionalizar os recursos para áreas historicamente desfavorecidas no mercado cinematográfico.
No entanto, Costa aponta que ainda existem lacunas significativas que precisam ser abordadas. “Falta regularidade na promoção e distribuição, e os editais de desenvolvimento quase desapareceram”, observa. A concentração de recursos é outro desafio que merece atenção, já que muitas produtoras em Pernambuco ainda são de nível inicial e carecem de oportunidades para crescer.
Investimentos Estatais e a Produção Cultural em Pernambuco
A trajetória de Kleber Mendonça Filho também é marcada por investimentos da Petrobras, a maior estatal brasileira, através do programa Petrobras Cultural. A empresa é responsável pelo patrocínio de diversos longas do cineasta, incluindo “O Som ao Redor” (2012) e “Bacurau”. Recentemente, o edital de patrocínio cultural da Petrobras, lançado em 2024, registrou um aporte recorde de R$ 250 milhões para a cultura brasileira.
No âmbito estadual, o Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura, conhecido como Funcultura, desempenha um papel vital no fomento à produção cinematográfica desde sua criação em 2002. Com um aporte recente de R$ 11 milhões, distribuído entre várias categorias, o Funcultura se mantém como um dos mecanismos mais antigos e importantes do Nordeste brasileiro, apoiando filmes como “O Som ao Redor” e “Bacurau”.
Com o Funcultura sendo o principal mecanismo de incentivo no estado, as discussões sobre sua melhoria são constantes. O debate sobre a descentralização dos recursos para promover a produção no interior, bem como a necessidade de desburocratização, são temas frequentes que buscam abrir espaço para novas vozes na cena cultural pernambucana.
Mannu Costa destaca que a sociedade civil teve um papel fundamental na criação e no fortalecimento do Funcultura, que se tornou um modelo a ser seguido por outras políticas regionais. Contudo, ela acredita que o fundo atualmente demonstra insuficiência em atender à demanda local. “Precisamos que o Estado atue em outras frentes, como na captação de negócios e na estruturação das empresas locais”, sugere.
A Influência da UFPE na Carreira de Kleber Mendonça Filho
A Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) também figura na trajetória do cineasta, já que foi onde ele deu seus primeiros passos na produção audiovisual. Os curtas “Casa de Imagem” e “Homem de Projeção”, realizados como trabalhos de conclusão no curso de jornalismo em 1992, foram fundamentais para sua formação. Em 2009, a UFPE lançava sua graduação em Cinema e Audiovisual, tendo um papel decisivo na formação de grupos e coletivos que se destacaram no cinema brasileiro a partir dos anos 2000.
“As parcerias começam nesses espaços e seguem pela vida. A universidade pública, através de políticas inclusivas, tem mudado a perspectiva da formação e do acesso ao cinema”, conclui Costa, ressaltando a importância da UFPE na evolução do cinema pernambucano.
