Queixa do Líbano na ONU
O governo do Líbano anunciou oficialmente que apresentará uma queixa na Organização das Nações Unidas (ONU) contra Israel, devido ao uso de substâncias químicas em vilarejos na fronteira. O incidente ocorreu em 1º de fevereiro de 2026, afetando comunidades rurais. Análises de laboratório realizadas em amostras de solo e água revelaram concentrações de glifosato – um herbicida considerado tóxico e potencialmente cancerígeno – entre 20 e 30 vezes superiores aos limites estabelecidos pelas normas internacionais.
Especialistas alertam que o uso desse produto em áreas de conflito busca criar uma “zona tampão” no sul do Líbano, com o intuito de eliminar plantações e matas, facilitando assim a vigilância militar e distanciando o grupo Hezbollah. As autoridades libanesas classificam essa prática como “ecocídio”, argumentando que ela compromete a fertilidade do solo e a biodiversidade local.
Relações entre Glifosato e Conflitos Armados
A utilização de substâncias químicas nocivas pelas forças israelenses não é uma novidade. A pesquisadora Silvia Ribeiro, da Alianza Biodiversidad, recorda que a Anistia Internacional já havia documentado o emprego de fósforo por Israel em 2023 na mesma região do sul do Líbano. Ribeiro relaciona essa ação a uma recente ordem executiva do governo dos Estados Unidos, assinada pelo presidente Donald Trump em 20 de fevereiro de 2026, que considera o glifosato e o fósforo elementos essenciais para a segurança nacional.
Essa nova legislação permite que agências americanas contornem burocracias para assegurar a produção e a distribuição do herbicida. O governo justifica a medida alegando que o agronegócio depende do glifosato para manter a produtividade.
Consequências e Denúncias Internacionais
A ordem executiva classifica o fósforo e os herbicidas à base de glifosato como essenciais à segurança nacional dos EUA. Embora a justificativa cite a necessidade de garantir a estabilidade da cadeia de suprimentos alimentares, ativistas e movimentos sociais questionam a verdadeira motivação, que, segundo eles, reside no fortalecimento do aparato militar e no uso desses produtos como armas químicas, em desacordo com tratados internacionais.
Ribeiro informa que o fósforo é empregado em parte na fabricação do glifosato, além de ser fornecido a empresas do setor bélico que o utilizam como fósforo branco para a produção de munições. “Com a ordem executiva, Trump assegura a fabricação de ambas as substâncias, essenciais tanto para o glifosato quanto para aplicações bélicas”, explica.
O uso do fósforo branco no Líbano foi denunciado por várias organizações, incluindo a Anistia Internacional. Essa prática bélica é restringida por convenções que proíbem o uso de certas armas convencionais.
O ativista alemão Jan Pehrke, membro da Coalizão contra os Perigos da Bayer, sustenta que, embora a justificativa do governo dos EUA para a “essencialidade” do glifosato vise a segurança alimentar, a intenção real é integrá-lo ao arsenal militar. “O Exército israelense está utilizando glifosato para devastar terras agrícolas, e o fósforo é parte desse contexto. Não é por acaso que Trump descreveu o fósforo como crucial para a ‘prontidão militar’”, ressalta Pehrke.
A História dos Agrotóxicos em Conflitos Armados
A Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida comparou os recentes ataques químicos ao uso do infame “agente laranja” durante a Guerra do Vietnã. “O novo ‘agente laranja’ é o glifosato, um agrotóxico amplamente utilizado no Brasil e classificado como potencialmente cancerígeno pela Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer (Iarc) desde 2015”, afirma a campanha.
Ribeiro destaca a conexão histórica entre o desenvolvimento de agrotóxicos e a indústria bélica. “Muitos desses produtos têm origem em conflitos armados, inicialmente utilizados para finalidades hostis e posteriormente adaptados para uso agrícola”, revela. “Essa ligação não é nova; sempre houve uma associação entre o uso militar de substâncias químicas e sua aplicação na agricultura”.
O Glifosato no Brasil e as Consequências para a Saúde
O glifosato é o agrotóxico mais consumido nas lavouras brasileiras, especialmente em plantações de milho e soja, representando cerca de 33% do total de defensivos agrícolas utilizados no país em 2023. Recentemente, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos, em parceria com a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), protocolou um ofício na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) pedindo a reavaliação e suspensão do uso do glifosato no Brasil.
As entidades argumentam que a revista Regulatory Toxicology and Pharmacology retractou um artigo que serviu como base para a liberação do herbicida no Brasil, revelando a influência de empresas farmacêuticas na sua elaboração, minimizando os efeitos nocivos do produto. “A revista admitiu que o artigo teve ‘significativa influência em decisões regulatórias’”, destacam.
Sílvia Ribeiro enfatiza que, desde 2015, a Organização Mundial da Saúde classifica o glifosato como provável cancerígeno. “É uma questão urgente banir essa substância em nível global, pois seu uso impacta não só a agricultura, mas também os recursos hídricos, a fauna e a saúde pública”, defende a pesquisadora, alertando sobre a detecção de resíduos de glifosato em leite materno e nas escolas. “O Brasil deve interromper o uso do glifosato e de outros agrotóxicos, que são usados como armas contra a natureza e a população”, conclui Ribeiro.
