Um Filme que Transformou o Turismo em Recife
O aclamado longa-metragem “O Agente Secreto”, sob a direção de Kleber Mendonça Filho e com a atuação marcante de Wagner Moura, não apenas conquistou prêmios, mas também se tornou um novo atrativo turístico em Recife. O filme, que recentemente recebeu o Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira e de melhor ator dramático, transporta os espectadores para a capital pernambucana nos desafiadores anos de 1970. Na trama, Moura vive um professor que retorna à cidade em busca de refúgio, enquanto enfrenta os fantasmas de seu passado e reencontra o filho.
Com o aumento do interesse de cinéfilos e turistas durante a temporada de premiações, uma agência local decidiu criar um passeio que leva os visitantes aos principais locais de filmagem. Essa experiência permite que os participantes revivam emoções dos personagens e compreendam melhor a atmosfera do Recife durante a ditadura militar. A La Ursa Tours, liderada pelo guia Roderick Jordao, de 46 anos, elaborou um trajeto que percorre os pontos mais emblemáticos do filme, especialmente no bairro de Boa Vista, no coração da cidade.
Roteiro Turístico: Conhecendo o Recife de ‘O Agente Secreto’
O passeio inicia-se no Parque Treze de Maio, próximo à Faculdade de Direito do Recife, e termina no icônico Cinema São Luiz, situado no histórico edifício Duarte Coelho, na Rua Aurora. O percurso guiado tem um custo de R$ 40 por pessoa e oferece uma oportunidade única de explorar a cidade enquanto se descobre os bastidores do filme.
No Parque Treze de Maio, os visitantes têm a chance de conhecer locais onde cenas marcantes foram gravadas, como a famosa Perna Cabeluda, além de admirar obras do talentoso artista pernambucano Abelardo da Hora, que embelezam o espaço. Em seguida, o grupo segue para o Ginásio Pernambucano, que no filme é retratado como um cartório. Fundada em 1825, essa instituição é a mais antiga em funcionamento no Brasil e tem um prédio tombado pelo Iphan desde 1984. Ao longo de sua história, formou grandes nomes, incluindo a escritora Clarice Lispector e o dramaturgo Ariano Suassuna.
Sabores e Tradições no Caminho
Outro ponto de destaque do percurso é a lanchonete Chá Mate Brasília, que opera na área central de Recife desde 1984, famosa por seu chá de erva-mate. José Pinheiro, dono da casa, aproveitou a onda de sucesso do filme para lançar uma nova bebida em homenagem à produção. Batizado de Agente Secreto, o drink esconde em sua receita dois ingredientes especiais que o proprietário prefere manter em segredo.
Com uma história que se entrelaça à do filme, José Pinheiro começou a trabalhar na lanchonete aos 14 anos. Ele conta que, ao solicitar uma câmera fotográfica ao pai, recebeu a resposta de que deveria trabalhar para comprá-la. Assim, passou a atender clientes, mantendo viva a tradição da casa, e se orgulha de ter participado da produção. Brincando, ele afirma que, caso o filme ganhe o Oscar, celebrará a vitória com um Agente Secreto bem gelado.
Locais Históricos e Memórias de Cinema
O roteiro turístico também inclui a Vila Santo Antônio, um conjunto de casas históricas construídas na década de 1940. Anteriormente ignorada, a entrada discreta se tornou um ponto de interesse após ser utilizada como cenário para uma das cenas mais memoráveis do filme. É nesse local que se desenrolam os principais momentos com a atriz Tânia Maria, que interpreta Dona Sebastiana. Sua interpretação, repleta de naturalismo e humor, conquistou o público e a crítica, gerando risadas nas sessões.
Um dos momentos mais icônicos do filme é quando Dona Sebastiana aparece fumando um cigarro na entrada da vila com uma elegância que remete aos clássicos do cinema de Hollywood. Visitantes frequentemente tentam reproduzir a cena para as redes sociais, buscando o ângulo perfeito para capturar a essência do filme.
O passeio chega ao fim no Cinema São Luiz, um local que abriga um orelhão, símbolo nostálgico que aparece nos cartazes de divulgação de “O Agente Secreto”. Este cinema, inaugurado em 1952, teve sua estreia nacional em setembro de 2024 e se destaca como um dos poucos cinemas de rua ainda em operação em Recife. Após um período de reformas, reabriu parcialmente suas portas durante o festival Janela Internacional de Cinema do Recife, reforçando o vínculo entre patrimônio cultural, memória urbana e produção audiovisual.
