segunda-feira 20 de abril

Uma Nova Abordagem na Saúde

A ideia do “slow living” nasceu na Itália em 1986, quando um grupo de cidadãos protestou contra a instalação de um McDonald’s na icônica Piazza di Spagna, em Roma. O movimento criticava a proposta de um “fast food” em um local que representa uma rica tradição gastronômica. Esse ato de resistência deu origem ao conceito de “slow food”, que valoriza a alimentação feita com mais atenção e menos correria. O cardiologista italiano Alberto Dolara, ao observar esta mudança, percebeu que a medicina também estava se tornando cada vez mais acelerada, resultando na chamada “fast medicine”.

Nos prontos-socorros, muitos pacientes são atendidos em processos que priorizam a rapidez em vez da humanização. Avaliações rápidas frequentemente se limitam a medir pressão arterial e temperatura, sem considerar a história e o contexto do paciente. Em consultas que mal chegam a seis minutos, é comum que sessões resultem em prescrições de medicamentos ou exames desnecessários, gerando um ciclo de ansiedade e insatisfação.

Dolara, em um artigo publicado em 2002 no Italian Heart Journal, argumentou que a pressa é, muitas vezes, desnecessária na prática clínica. Ele sugeriu que a implementação de uma abordagem de Slow Medicine permitiria que médicos e enfermeiros dedicassem tempo suficiente para entender os problemas pessoais, familiares e sociais de cada paciente. Isso não só reduziria a ansiedade relacionada a diagnósticos e tratamentos não urgentes, mas também promoveria um cuidado mais significativo e emocional, especialmente para pacientes em situações terminais e suas famílias.

O ideal de Slow Medicine começou a ganhar força entre os profissionais da saúde, que se uniram para criar um espaço de diálogo sobre a prática médica. No Brasil, essa proposta se consolidou por meio de palestras, publicações de livros de autores italianos e americanos, e a criação do movimento Medicina Sem Pressa.

A Versão Brasileira do Movimento

O movimento no Brasil foi impulsionado por figuras como o geriatra José Carlos Aquino de Campos Velho, o professor de cirurgia Dario Birolini e o clínico geral Kazusei Akiyama. Campos Velho, que se dedicou a estudar o movimento, acredita que tanto os pacientes quanto os médicos no Brasil estavam prontos para essa proposta transformadora. Ele explica: “O Brasil precisava desse movimento, tanto os pacientes quanto os médicos precisavam saber sobre essa prática”.

Após 10 anos de existência, o site da Medicina Sem Pressa conta com aproximadamente 20 colaboradores, incluindo médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde, que contribuem com artigos, palestras e livros. O movimento já atraiu mais de 14 mil seguidores nas redes sociais, muitos dos quais atuam na área da saúde.

“Defendemos uma medicina que é sóbria, respeitosa e justa”, explica André Islabão, médico internista e co-autor do livro “Slow Medicine – sem pressa para cuidar bem”. Ele destaca que a sobriedade se refere ao acesso equitativo aos tratamentos essenciais, sem o uso excessivo de medicamentos e exames desnecessários. A medicina respeitosa enfatiza a importância da relação entre médico e paciente, onde o profissional deve ouvir e considerar as necessidades e desejos do paciente, promovendo uma verdadeira parceria.

Princípios Fundamentais do Movimento

A justiça está atrelada à redução dos excessos, permitindo que mais pessoas tenham acesso a cuidados de saúde que realmente necessitam. Segundo os membros do movimento, um dos princípios centrais é a importância de dedicar tempo para ouvir e compreender as necessidades do paciente antes de tomar decisões. “O princípio da autonomia é essencial. O paciente precisa estar no centro do cuidado, e as decisões devem ser tomadas de forma compartilhada”, afirma a oncologista Ana Coradazzi, também co-autora do livro “Slow Medicine”.

Além disso, Islabão ressalta que a tecnologia, embora benéfica, não deve afastar o contato humano entre médico e paciente. O uso excessivo de telemedicina, por exemplo, pode criar uma barreira que impede a construção de um relacionamento de confiança e acolhimento, essencial durante o tratamento.

Coradazzi observa um crescente interesse pelo movimento, com um aumento no engajamento nas redes sociais e a formação de ligas acadêmicas em universidades. “Estamos vendo uma disseminação da ideia pelo Brasil. Acredito que na próxima década, essa discussão continuará a se expandir, com profissionais buscando mudar o sistema de saúde atual”.

Os 10 Princípios da Slow Medicine

Os princípios que fundamentam a Slow Medicine são fundamentais para entender sua proposta e impacto na prática médica. Eles visam garantir que o cuidado seja sempre centrado no paciente, promovendo uma medicina que não apenas trata, mas também respeita e valoriza cada indivíduo.

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