domingo 19 de abril

A Importância da Comunicação Visual na Saúde

“Meu patrão está sentindo o quê?” Essa é a abordagem do médico da família e comunidade, Lucas Cardim, de 39 anos, ao receber pacientes em seu consultório. Essa frase evidencia como ele prioriza o relacionamento com os enfermos. A busca por um atendimento mais acessível e humano levou Cardim a desenvolver uma plataforma digital que permite a criação de receitas ilustradas, simplificando a compreensão das orientações médicas.

No sertão de Pernambuco, onde Cardim atende, ele se deparou com um desafio que vai além da falta de médicos e medicamentos: muitos dos pacientes enfrentam dificuldades para ler os receituários. Na zona rural de Petrolina, a 712 km de Recife, essa questão se torna um obstáculo significativo para o tratamento adequado.

Para contornar essa barreira, o médico começou a desenhar manualmente em suas receitas. Além de escrever os nomes dos medicamentos, ele incluía símbolos para indicar os horários de uso: uma xícara de café para o período da manhã e uma lua com estrelas para a noite. A quantidade era representada por pequenas bolinhas, facilitando para o paciente compreender a dosagem. “Nosso trabalho é essencialmente visual”, explica Cardim. “Muitos profissionais desenham para os seus pacientes, mas aqueles que não fazem isso podem estar perdendo uma oportunidade valiosa de comunicação”, completa.

Filho de uma mãe sertaneja e neto de um não letrado, Cardim tem uma forte conexão com a região onde trabalha. Ele é formado em medicina, mas sua primeira formação foi em jornalismo, ambas em universidades públicas. Essa bagagem cultural e educacional o motivou a criar soluções que possam gerar um impacto real na vida das pessoas que atende.

A Evolução da Abordagem

Como o desenho manual consumia muito tempo e poderia causar constrangimento a alguns pacientes, Cardim buscou uma alternativa mais eficiente. Ele entrou em contato com Davi Rios, um amigo de infância e engenheiro de software no Google. Juntos, eles desenvolveram a plataforma Cuidado Para Todos (cuidadoparatodos.com.br), que permite que médicos criem receitas ilustradas em poucos minutos.

O sistema, acessível gratuitamente, possibilita que os profissionais de saúde montem receitas utilizando desenhos, fotografias e outros elementos visuais. Além disso, é possível incluir QR-codes que levam a vídeos explicativos sobre a aplicação de medicamentos, como o uso de seringas.

Desde seu lançamento, a plataforma, que começou com apenas três ícones, já conta com mais de 200 opções de medicamentos. Cardim relata que a aceitação tem sido especialmente positiva entre pacientes que estão em tratamento de doenças crônicas. Para aqueles que sofrem de asma, por exemplo, a plataforma fornece orientações detalhadas sobre o uso correto do inalador. Os diabéticos, por sua vez, recebem instruções que vão desde como armazenar a insulina até a aplicação no local adequado.

Severino Leal de Brito Neto, um paciente de 52 anos que tem diabetes, elogia a iniciativa. Ele relata que, ao ser atendido, recebeu uma pasta contendo todos os exames e receitas, o que facilitou sua compreensão sobre os tratamentos necessários. “É uma forma de cuidar da saúde que eu nunca havia visto antes”, afirma Severino.

Impacto Social e Futuro da Plataforma

Durante a rotina de atendimentos do médico, ele sempre busca personalizar as explicações para cada paciente. Um dos casos acompanhados foi de um idoso que começaria um tratamento para parar de fumar. Cardim utilizou comparações com a agricultura local para explicar como utilizar os adesivos de modo eficaz. Já José Manoel de Barros, de 64 anos, queixou-se de problemas digestivos, recebeu orientações sobre a importância de consumir água filtrada, ilustradas em seu receituário com desenhos claros.

Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), cerca de 29% da população brasileira entre 15 e 64 anos apresenta dificuldades em compreender textos simples. Nesse contexto, Cardim e sua equipe esperam que a plataforma Cuidado Para Todos seja incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS) em todo o Brasil. “Queremos doar a tecnologia ao Ministério da Saúde para que possam integrá-la ao Prontuário Eletrônico do Cidadão”, explica.

Atualmente, a plataforma já está em funcionamento em dez municípios e três distritos indígenas, abrangendo estados como Alagoas, Bahia, Santa Catarina, Sergipe e São Paulo. O médico destaca que na comunidade de Bebedouro, onde realiza atendimentos, mais da metade dos pacientes com diabetes que estavam descompensados conseguiram estabilizar seus níveis de glicemia, utilizando os mesmos medicamentos que já possuíam acesso, mas agora com uma orientação mais clara e informativa.

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