A Revolução do Consumo Consciente
As transformações socioculturais, aliadas às inovações tecnológicas e mudanças econômicas, têm o poder de alterar profundamente os hábitos de consumo. Nos últimos anos, a ascensão da moda circular entre as gerações Y e Z exemplifica claramente essa mudança de paradigma. Um estudo recente do Boston Consulting Group (BCG), que projetou dados para 2025, revela que aproximadamente um terço das compras realizadas pela geração Z consiste em produtos de segunda mão. Já os millennials, que nasceram entre 1981 e 1996, seguem de perto: 29% de suas aquisições são de itens seminovos ou usados.
O segmento de moda é, sem dúvida, o mais significativo no mercado de second hand entre essas duas gerações. Para a geração Z, formada por jovens e adultos nascidos entre 1997 e 2010, roupas e acessórios representam incríveis 81% dos produtos adquiridos. Essa tendência evidencia uma mudança nas prioridades de compra e um crescente apelo pela sustentabilidade.
Valores Sociais e Sustentabilidade
O psicólogo Nilton Formiga, especialista em comportamentos de consumo, ressalta que esse fenômeno é particularmente forte entre os consumidores mais jovens, cuja decisão de compra é frequentemente moldada por valores socioambientais. “Essas gerações demonstram alta sensibilidade à moda circular, sustentada por princípios de sustentabilidade, responsabilidade social corporativa e consumo consciente”, afirma.
O modelo de consumo sustentável promovido pela moda circular visa não apenas reduzir o impacto ambiental, mas também minimizar o desperdício de recursos e oferecer opções mais acessíveis aos consumidores. A estudante de Farmácia, Maria Eduarda Foppa Dutra, de 19 anos, é um exemplo perfeito dessa nova tendência. Ela começou a frequentar brechós em busca de preços mais acessíveis: “Comecei a ir porque roupas de primeira mão são muito caras e é incrível o que se pode reaproveitar na segunda mão”.
A Busca por Autenticidade
Maria Eduarda, pertencente à geração Z, exemplifica os jovens que tomaram para si o hábito do consumo circular. Com mais de quatro anos de experiência em brechós, ela percebeu uma maior diversidade nas peças: “Tem sempre muita opção diferente para quem é mais alternativo”, observa. Essa procura por autenticidade, aliada ao desejo de encontrar peças únicas, tem se tornado um fator crucial na relação dos jovens com o mundo da moda.
A coordenadora do curso de Design de Moda do UniSenac em Porto Alegre, Nicele de David Branda, compartilha essa visão: “Além da consciência ambiental, existe essa busca por identidade através de peças únicas e o desejo de se diferenciar, especialmente entre alguns grupos que rejeitam o consumo padronizado”.
O Consumo como Expressão de Identidade
Para Nilton Formiga, o consumo vai além de um ato utilitário; ele se transforma em um símbolo importante na construção da identidade, tanto individual quanto coletiva. A escolha de peças em brechós não é feita ao acaso, mas com base em valores pessoais e posicionamentos sociais. “O vestuário serve historicamente como um marcador social e identitário”, aponta o especialista.
Upcycling: Reinventando a Moda Circular
Outro conceito em ascensão dentro da moda circular é o upcycling, que se refere à personalização e transformação de roupas, criando novas peças a partir de itens antigos. Maria Eduarda compartilha suas experiências com essa abordagem: “Tenho várias roupas que pinto, tingido, costuro e bordo”, revela. Ela combina os preços acessíveis dos brechós com a originalidade de seu processo criativo, resultando em peças únicas e cheias de personalidade.
