sexta-feira 30 de janeiro

Programa Estadual de Monitoramento

Pernambuco, conhecido por registrar o maior número de ataques de tubarões no Brasil, está prestes a reiniciar um importante projeto de monitoramento dessas criaturas marinhas nas praias da Região Metropolitana do Recife. O edital, divulgado este mês pelo governo estadual, segue com inscrições abertas até o início de março. No dia 9 de janeiro, um incidente alarmante ocorreu quando a advogada Tayane Dalazen foi mordida por um tubarão-lixa enquanto mergulhava em Fernando de Noronha, uma área que já adota esse controle. O projeto, que terá duração de 24 meses e investimento de 1 milhão de reais, abrangerá 33 quilômetros de litoral entre Cabo de Santo Agostinho e Olinda, incluindo as movimentadas praias de Boa Viagem e Piedade, locais com maior incidência de ataques. A previsão é que a execução do programa comece em maio deste ano, retornando após uma paralisação de 11 anos, que se deu em 2015.

Dados Alarmantes e Ações Preventivas

Desde 1992, Pernambuco registrou 81 ataques de tubarões, sendo 67 no litoral continental e 14 em Fernando de Noronha, com um trágico saldo de 26 mortes e 55 feridos. A Secretaria Estadual de Meio Ambiente destaca que o monitoramento permitirá não apenas identificar padrões de comportamento dos tubarões, mas também desenvolver campanhas de conscientização para o uso seguro das praias. As ações de controle das espécies incluem o uso de redes acústicas, telemetria e sistemas de alerta em tempo quase real, todas estratégias não letais e fundamentadas em evidências científicas e comunicação preventiva. O engenheiro de pesca Paulo Oliveira, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), explica que os tubarões serão capturados, marcados e devolvidos ao mar, recebendo chips que permitem sua localização por receptores submersos ao longo da área monitorada.

Integração de Dados e Conscientização

O projeto ainda contempla a integração de dados com modelagens oceanográficas e sensoriamento remoto para acompanhar variáveis ambientais. Essa abordagem não envolve apenas pesquisadores, mas também comunidades pesqueiras e usuários do litoral, promovendo uma plataforma digital para análise e comunicação preventiva. “O objetivo é desvendar o comportamento de vida dos tubarões. A marcação gera um pulso que pode ser detectado por estações subaquáticas, permitindo monitorar a movimentação desses animais e, assim, identificar os horários e épocas do ano em que se aproximam ou afastam da costa”, detalha Oliveira. Esse acompanhamento fornecerá informações valiosas à população, ajudando os banhistas a utilizarem as praias de maneira mais consciente. Além disso, os dados coletados devem contribuir para a formulação de políticas públicas voltadas à educação ambiental.

A Importância do Monitoramento para a Segurança

A partir das informações geradas, a Secretaria de Meio Ambiente, de Sustentabilidade e de Fernando de Noronha pretende elaborar o Plano de Ação Estadual para Pesquisa e Monitoramento de Tubarões em Pernambuco. O secretário Daniel Coelho ressalta a importância desse monitoramento na Região Metropolitana, afirmando que é fundamental para entender melhor o comportamento dos tubarões, proteger o ecossistema marinho e garantir a segurança da população. “Ao levar a ciência ao centro da gestão pública, o governo reafirma seu compromisso com decisões responsáveis, que salvam vidas e preservam a natureza”, destaca o secretário.

Desafios e Fatores Ambientais

Oliveira aponta que, entre as espécies presentes no litoral pernambucano, o tubarão-tigre e o cabeça-chata são os mais agressivos. Embora os ataques não sejam exclusivos de Pernambuco, ele enfatiza que muitos desses episódios estão relacionados a fatores locais. A degradação dos ecossistemas costeiros é uma das razões que tornam o oceano menos habitável para os tubarões. O impacto da construção do Porto de Suape, por exemplo, resultou na supressão de vegetação e alteração do estuário. Comparando com outras regiões que possuem grandes empreendimentos, mas não registram ataques, Oliveira menciona como fatores oceanográficos, como a topografia submarina, podem atrair tubarões para as proximidades das praias, aumentando a interação com banhistas.

A característica das praias em Recife e na Região Metropolitana, que são profundas mesmo próximas à costa, também contribui para essa situação. Isso cria corredores para várias espécies de peixes e tubarões em seus processos de migração e alimentação. A Praia de Boa Viagem, por exemplo, é um local onde, durante a maré alta, é comum a presença de tubarões próximos aos recifes, criando um ambiente de risco para os turistas. Portanto, a implementação do monitoramento se torna crucial não apenas para a segurança dos banhistas, mas também para a preservação do equilíbrio no ecossistema marinho.

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