Um marco na valorização da arte afro-brasileira
O Museu de Cultura Afro-Brasileira (Muncab) está prestes a abrir sua mais nova exposição, que se destaca por integrar a maior repatriação de obras de arte afro-brasileira já realizada no Brasil. O projeto é fruto de mais de 30 anos de trabalho das historiadoras de arte americanas Bárbara Cervenka e Marion Jackson, que viajaram pelo Nordeste do país em busca de obras de artistas locais. Após décadas de pesquisa e aquisição, elas decidiram doar essa valiosa coleção, composta por pinturas, esculturas, fotografias, gravuras, xilogravuras e arte sacra, produzidas entre as décadas de 1960 e 2000 por artistas negros como J. Cunha, Babalu, Goya Lopes, e muitos outros.
A operação de repatriação, que envolveu um complexo esquema de logística, incluindo embalagem especializada e transporte internacional, se tornou um marco significativo na história da arte brasileira. O apoio de órgãos públicos e parceiros foi essencial para que essa coleção pudesse retornar ao Brasil, trazendo à tona a importância da arte afro-brasileira em um momento em que a história da arte revisita suas narrativas tradicionais.
Um legado cultural a ser celebrado
A diretora geral do Muncab, Cintia Maria, e a diretora artística, Jamile Coelho, já haviam iniciado suas atividades à frente do museu com a exposição “Um defeito de cor”. A abertura dessa nova mostra reflete o compromisso delas em fortalecer, preservar e divulgar a cultura afro-brasileira em todas as suas expressões artísticas e intelectuais. Em meio a discussões sobre o papel dos museus na contemporaneidade, a riqueza da coleção que agora faz parte do acervo do Muncab proporciona uma nova perspectiva sobre a autoria e a circulação das memórias na arte brasileira.
O acervo não só enriquece o museu, mas também abre espaço para novas interpretações sobre as narrativas históricas que antes foram marginalizadas. Jamile destaca que as obras representam a produção orgânica e empírica de artistas do Nordeste, que muitas vezes são rotulados como arte popular ou naïf, sem que haja um estudo detalhado sobre seu valor e significados. “Percebemos que a estrutura de racismo afeta a classificação de artistas negros, relegando-os a uma caixinha sem que suas produções sejam devidamente analisadas”.
Expansão do conhecimento e inclusão da diversidade
A nova exposição, intitulada “Inclassificáveis”, contará com cerca de 100 obras da coleção, que vêm sendo restauradas e cuidadas com atenção. Jamile exemplifica a importância desse acervo ao mencionar a Escola de Esculturas de Cachoeira e artistas como Gil Abelha e J. Cunha, que continuam a influenciar a cena artística brasileira até hoje.
Entre as obras que serão expostas, destacam-se um díptico de J. Cunha chamado “Cabeça de Iaô”, que traz influências afro-religiosas, e “Bois tombados”, que discute a relação entre humanidade e a natureza, uma reflexão atual e necessária. Além disso, Sol Dário, que recebeu o prêmio de melhor exposição individual em 2023, tem sua arte sacra reconhecida na nova exposição, reafirmando a importância da produção desses artistas.
Um futuro promissor para a arte afro-brasileira
Com a reabertura do Muncab, o museu planeja um programa extenso de exposições, catálogos e iniciativas educativas que giram em torno da nova coleção. Essa repatriação representa um passo crucial para a arte brasileira, especialmente num contexto de apagamento histórico de obras de artistas negros. Assim, o Muncab se firma como um espaço essencial para a valorização e difusão da cultura afro-brasileira.
Esse processo de repatriação é descrito por Jamile como um “rematriar”, em vez de simplesmente repatriar. A terminologia, proposta pelo professor Ayrson Heráclito, enfatiza a força feminina que esteve presente em todo o processo, desde a doação até a curadoria da exposição. Retornar esse legado à Bahia é um gesto simbólico que visa restituir a ancestralidade e os saberes que fazem parte da narrativa da cultura afro-brasileira.
